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Análise

Regime angolano prepara-se para manifestações de rua, enquanto lida com estragos diplomáticos

Regime angolano prepara-se para manifestações de rua, enquanto lida com estragos diplomáticos


A primeira onda de choque da condenação dos 17 jovens activistas em Angola foram estragos diplomáticos, que o regime está a tentar conter. Na quinta-feira, foi a vez dos Estados Unidos dizerem que está em causa a liberdade no país. A segunda onda de choque serão manifestações de rua, nos próximos dias.

A nota do Departamento de Estado dos Estados Unidos, assinada pelo porta-voz John Kirby, afirma que as penas “pesadas contra activistas ameaçam o exercício das liberdades de expressão e reunião pacífica". "Estamos também preocupados com relatos de irregularidades processuais e falta de transparência no julgamento, que levantam questões sobre se o Estado de Direito prevaleceu neste caso". 

A reação norte-americana foi conhecida horas depois de o embaixador da União Europeia, Gordon Kricke, se apresentar no Ministério das Relações Exteriores, para ouvir críticas do secretário de Estado Manuel Augusto à "ingerência" que constituiu a declaração europeia de dia 29, muito semelhante à norte-americana.

Para hoje, está marcada uma manifestação no Porto, Portugal, onde no dia 28 de março terá sido vandalizado o Consulado Geral de Angola. Nota da missão angolana afirma que a Polícia não estava presente e os autores grafitaram paredes e vidros com dizeres como "liberdade já".

"O grupo de manifestantes (deverá estar) ligado aos demais movimentos anti-Governo de Angola espalhados em Portugal (...) com a intenção de pressionar o Governo angolano no processo dos 15+2 cidadãos nacionais angolanos, condenados por actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores", adianta.

Para dia 4 de abril está marcada manifestação em Benguela, à qual o governador Isaac dos Anjos, negou a permissão. Luanda deverá ser palco de outra manifestação, dia 9. CASA-CE e PRS apelam a militantes para que participem em todas as ações.

A vaga de pressão internacional, da parte de governos e ONG, já era esperada. No estrangeiro, o regime esforça-se por atribuir em privado o “fenómeno” dos “Revus” à ação específica de activistas como Rafael Marques, de “portugueses” como José Eduargo Agualusa ou Mário Crespo, e da Amnistia Internacional. E tenta vincar o “desinteresse” da larga maioria do povo em relação ao caso. 

Mas as autoridades demonstram agora preocupação acrescida com o controlo de manifestações de rua. Para a participação pública nas manifestações concorre o grau de descontentamento geral da população, acrescido nos últimos meses devido a agravamento de fenómenos como aumento dos preços de bens básicos, falta de trabalho e crise de saúde pública com focos epidémicos de elevada mortalidade (superior a 15%) em Luanda e províncias vizinhas, com tendência de alastramento a todo o país, (febre amarela, paludismo e febre tifóide). 

Contudo, sublinha o Briefing Africa Monitor de hoje, redes de movimentos contestatários têm estado no passado recente sob controlo efectivo e forças de segurança deverão ser mobilizadas em peso para conter qualquer concentração de manifestantes.