África Monitor

Análise

Paulo Guilherme

Angola na viragem do "Eduardismo"

Angola na viragem do "Eduardismo"

 
“Exactamente como acontece em relação às outras figuras- chave da “entourage”, J.E. dos Santos não lhe pede mais que a obediência, lealdade e zelo. E uma ausência de ambições, que por não ter estado tão ausente assim custou a carreira a outros. Em troca dá-lhes essa suprema protecção que deriva do seu papel dominante no sistema de poder. Mas é da combinação disto que nasce um dilema: ao fim de 18 anos de poder, J.E. dos Santos está apenas apoiado por gente que não vale por si própria, sem implantação; e por isso é uma gente que reage com angústias ao cenário do “day after” da saída de cena do seu “protector”.
(Africa Focus 586, Fev.1998)
 

Quase 20 anos depois deste premonitório texto no Africa Focus, uma das publicações de que o Africa Monitor Intelligence é “herdeiro”, chegou finalmente o “day after”.

Nestas quase duas décadas, aqueles a quem faltava implantação quando Santos os chamou junto a si, foram construindo a sua própria rede de poder. Ainda assim, o cenário o "day after" traz, de facto, angústia - a “Kopelipa” (personagem central do citado texto de 1998), José Maria e outros que tudo devem a José Eduardo dos Santos.

Angústia, primeiro, por saber que a esmagadora maioria dos cidadãos angolanos chegam com uma mão cheia de nada ao fim de 38 anos de “Eduardismo”. Que a crise económica e financeira não tem fim à vista e que, por isso, as promessas das eleições de 2017 são ainda mais difíceis de acreditar.

Como, em Dezembro de 2016, assinalamos aqui, para Santos o sair de cena gradual foi-se tornando a única solução. Pela sua notória impopularidade - mesmo dentro do MPLA - agravada por uma crise que, num regime ultra-presidencialista, o atingiu em cheio. E inadiável também pela sua avançada idade e crescente debilidade física.

Pressentir a impopularidade a crescer em relação à família presidencial tem sido a outra angústia dos fiéis de Santos. Nos bastidores, as movimentações são frenéticas. Muitos tentam posicionar-se para o “tempo novo” distanciando-se discretamente da família presidencial, chegando-se mais perto de Lourenço e de outras figuras em ascensão, de que vamos dando conta no Africa Monitor Intelligence.

Cerebral e calculista, JES urdiu uma complicada teia para preparar este “day after”. A economia está hoje nas mãos da família presidencial - com a subida à presidência da Sonangol, Isabel dos Santos controla a principal fonte de receitas do país, para além de ter "voz de mando" em 4 dos 5 maiores bancos (o maior, o BPC, é público e está descapitalizado); o filho varão, José Filomeno dos Santos, já controlava o Fundo Soberano de Desenvolvimento de Angola.

Santos sempre premiou "obediência, lealdade e zelo", conforme observa o artigo do Africa Focus.  O
 Comité Central e o Bureau Político continuam cheios de gente leal à família presidencial, tal como a Justiça, Segurança e Defesa ou o sector empresarial do Estado. 

As eleições de 2017 são históricas e um momento de viragem. Mas o controlo do processo do MPLA é total - desde o recenseamento à contagem dos votos. Por isso, a viragem - na sua velocidade e no seu pendor - deverá decidir-se mais em função de negociações e reposicionamentos nos bastidores do próprio MPLA.

João Lourenço, o mais provável vencedor das eleições de 23.Ago, oferece garantias de estabilidade na transição. Porque viveu por dentro todas as convulsões do passado do partido, ele sabe que uma viragem demasiado rápida pode fazer o “barco” do regime virar.

Se não virar o suficiente, Lourenço corre o risco de perder o apoio dos que querem a mudança - dentro e fora do regime.

Certo, para todos, é que o actual rumo, aquele em que o "Eduardismo" tem trazido Angola, não leva a bom porto. E reconhecer isso é já um recomeço.