África Monitor

Análise

Paulo Guilherme

A "angolanização" da banca nasceu da fraqueza, não da força da economia de Angola

A "angolanização" da banca nasceu da fraqueza, não da força da economia de Angola

 
Finalmente, a banca angolana está quase "angolanizada". Cumpre-se assim o antigo sonho da Cidade Alta, de empurrar os portugueses para fora do controlo das principais instituições financeiras do país. Ao contrário do que sempre se esperou, o factor decisivo foi menos a força da elite empresarial angolana do que a fraqueza da sua economia.

Primeiro foi o descalabro do Banco Espírito Santo Angola, que acabou com o controlo do banco - desgovernado e desfalcado - pelo Estado. Agora, é a fusão do Banco Millennium Angola (BMA) com o angolano Banco Privado do Atlântico (BPA), sob controlo da Global Pactum do angolano Carlos Silva. Segue-se o Fomento Angola, restando saber em que moldes o português BPI irá ceder o controlo.

No caso do Millennium, onde a Sonangol nos últimos anos construiu uma posição de principal accionista, a decisão deveu-se principalmente à necessidade de os bancos portugueses obedecerem às novas e mais exigentes regras financeiras europeias. Mas também à difícil conjuntura no mercado angolano - queda do preço do petróleo, dificuldades económicas, desvalorização do kwanza e maiores restrições à atividade bancária.

A partir do início de 2015, Angola deixou de integrar a lista de países com regulamentação e supervisão equivalentes às da União Europeia (UE). Para a avaliação da "saúde" dos bancos europeus, passaram a contar negativamente os ativos angolanos detidos: seja dívida pública, o crédito concedido ao Estado, ou reservas e depósitos junto do Banco Nacional de Angola (BNA).

Foi uma inversão histórica. Durante décadas, Angola foi para os bancos portugueses sinónimo de rentabilidade.
A visão do "El Dorado" terá começado a ruir com as enormes perdas sofridas pelo BES devido ao descontrolo na concessão de crédito pelo BESA. 

Ao momento difícil na economia juntou-se uma pressão efetiva para diluir os activos angolanos no balanço, com alertas para a elevada exposição ao mercado, nomeadamente aos títulos de dívida do Estado.


O caso do Fomento será o "nó" mais difícil de desatar. Os dois principais accionistas do português BPI - Isabel dos Santos e La Caixa - parecem ter visões distintas sobre o melhor caminho a seguir. Segundo o Expresso, a empresária angolana quer comprar a participação do BPI no BFA, onde já detém cerca de 49 por cento através da "sua" Unitel.

O Conselho de Administração do BPI propôs um caminho diferente: a fusão das posições do BPI em África numa "holding" participada por todos os acionistas.

Controlando o BFA, Isabel dos Santos poderia depois fundir o banco com o "seu" BIC e criar a maior instituição financeira privada angolana. Um banco com dimensão regional, capaz de se implantar de forma ainda mais forte em mercados estratégicos para Angola, como São Tomé e Príncipe ou Cabo Verde.

Como o BPI está sob pressão e não se pode fazer nada no banco sem que Isabel dos Santos esteja de acordo, é de prever que pelo menos parte da participação no BFA venha a ser vendida a angolanos. A empresária parece ter-se especializado em levar a sua avante em Portugal - veja-se o caso do longo braço de ferro com os portugueses na Unitel, ou a "rasteira" à Sonae no caso do Continente Angola.

A angolanização da banca é cada vez mais real. Seria motivo para as autoridades celebrarem, mas a situação dos bancos angolanos inspira neste momento sobretudo cuidados. E o país é hoje muito menos atraente do que quando começaram a ser desenhados os planos para colocar o controlo dos bancos nas mãos da elite angolana.