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Análise

Distâncias e proximidades entre João Lourenço e elites no processo de sucessão

Distâncias e proximidades entre João Lourenço e elites no processo de sucessão


João Lourenço, candidato do MPLA às eleições gerais de Agosto, procura assumir-se como alternativa ao ciclo anterior do seu partido, com um discurso anti-corrupção e desperdício. No processo de sucessão política em Angola, a gestão das proximidades e distâncias de Lourenço em relação às elites políticas e empresariais, serão a chave da estabilidade, afirmam analistas. 


Depois de quase 38 anos no poder, o presidente angolano José Eduardo dos Santos, irá ter um sucessor a partir de Agosto, que irá debater-se no imediato com profundas dificuldades económicas e financeiras, conforme sublinha a investigadora Paula Cristina Roque, em estudo para o sul-africano Institute for Security Studies.

“Para se reformar a economia, terá de acontecer uma diversificação política. A dificuldade será desembaraçar as reformas económicas dos interesses das elites”, afirma a analista no estudo “Reforma ou Desenredo: Perspectivas para a Transição Angolana”.

Para Roque, o início do processo terá de envolver a diversificação económica, mas também iniciativas a favor das populações de mais baixos rendimentos.

Referindo-se a João Lourenço, candidato do MPLA e favorito à vitória nas eleições de 23 de Agosto, a analista afirma que também terá como teste as relações externas, dado que assumirá uma “enorme dívida à China, enquanto os Estados Unidos e a Rússia estão a exigir aventurar-se mais profundamente em áreas económicas chave”.

Outros obstáculos identificados a ímpetos reformistas incluem o "enraizamento de política partidária em todos os aspectos do Estado e da rede clientelar destinada a assegurar os interesses da elite", que "enfrequeceu as instituições", e a reforma do aparelho de segurança, onde existem "estruturas paralelas, serviços de informações intrusivos e negócios envolvendo líderes".

A estabilidade futura do país, afirma, está dependente do processo de transição, e o novo presidente pode revelar um pendor mais autoritário ou demonstrar dificuldades em fazer reformas, mas em qualquer caso, “existe uma janela de oportunidade para levar o país para longe da tempestade perfeita”.

No seu último relatório Perspectivas Económicas Globais, o Fundo Monetário Internacional reduziu novamente as previsões para Angola, para 1,3% em 2017 e 1,5% em 2018, muito abaixo dos últimos anos, da média da região e em relação à média global (3,5% em 2017).

Em 2016, a economia angolana registou um período de forte recessão, nos 2º e 3º trimestres, entre -4,3% e -7,8%, de acordo com dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística. A estagnação (0%) no final do ano terá sido resultado de uma recuperação dos preços petrolíferos.

Ao longo da travagem da economia, iniciada com a quebra dos preços do petróleo em 2014, registou-se um aumento da taxa de inflação, que atingiu os 30% no final do ano passado, antes de começar a recuar.

Segundo a Economist Intelligence Unit, as expectativas de mudança “substanciais” em torno de João Lourenço, “podem ser difíceis de alcançar”, dadas as influências de membros da elite, nomeadamente próximos da presidência e família do actual presidente, que tenderão a querer manter o seu poder.

Em artigo recente sobre o processo de sucessão, o Africa Monitor refere que empresários angolanos próximos do MPLA, mas fora do círculo da presidência, esperam que a transição em curso no partido traga uma nova política económica e no papel do Estado na economia.

“A principal expectativa prende-se com a reorientação das opções económicas, do sentido da criação de uma economia mais assente no sector agro-alimentar e industrial, em cujo crescimento deverá ser aplicada a receita petrolífera. A expectativa é que 2018 marque o arranque da aposta na criação de indústrias nacionais e de marcas angolanas, tornando o país, a prazo, menos dependente das importações, sobretudo alimentares”, refere o Africa Monitor.