África Monitor

Análise

Paulo Guilherme

Parceiros da Guiné-Bissau mobilizam-se perante tensão com militares

Parceiros da Guiné-Bissau mobilizam-se perante tensão com militares

 
Os militares têm-se mantido à margem da crise política na Guiné-Bissau, ao longo de quase um ano. Mas a crise só tem vindo a agravar-se, e nas últimas semanas envolveu algumas movimentações nos quartéis. A situação parece ter finalmente levado a comunidade internacional a mobilizar-se, por iniciativa do Senegal e outros países da região.

A pedido do Senegal, o Conselho de Segurança das Nações Unidas irá discutir na terça-feira os últimos desenvolvimentos da crise política em Bissau. Isto depois de na passada quinta-feira ter-se reunido, também em Nova Iorque, a configuração Guiné-Bissau da Comissão de Consolidação da Paz das Nações Unidas (PBC).

O Comunicado final da reunião da PBC expressa apoio à decisão da CEDEAO, na Cimeira dos Chefe de Estado e de Governo, de 4 de junho, de designar uma delegação constituída pelos presidentes da Guiné-Conacri, Senegal e Serra Leoa para mediação com as partes envolvidas na crise política, para superar o actual impasse. Saúda ainda a decisão da CEDEAO de prorrogar por um ano o mandato da Missão em Bissau (ECOMIB), e o início de consultas para a convocação de uma reunião do Grupo de Contacto Internacional (ICG) para Guiné-Bissau.


Sublinhando a necessidade de “iniciativas diplomáticas internacionais coordenadas” para “poupar o país de qualquer risco de violência e evitar mais instabilidade”, a PBC afirma-se ainda disponível para trabalhar “em particular com as instituições financeiras internacionais e nacionais e parceiros internacionais, a fim de reorientar o apoio político e financeiro para o país, de acordo com as prioridades do programa de desenvolvimento 'Terra Ranka'”, pacote de ajudas de cerca de 1.500 milhões de dólares prometido em 2015 ao país.

Após a recente demissão do governo de Carlos Correia pelo presidente José Mário Vaz e posterior nomeação Baciro Djá para primeiro-ministro, viveram-se episódios de tensão em Bissau, com o governo demissionário barricado no Palácio do Governo até ao final da semana passada.

No meio da tensão, surgiram relatos de envolvimento de militares, noticiados pelo Africa Monitor Intelligence, em ações de protesto e de defesa das instalações da Presidência. Segundo o Briefing Africa Monitor, estas “tornaram inevitável a continuação da ECOMIB, principal dissuasor em Bissau face a episódios de violência/sublevação em maior escala”.

“Se, por um lado, a continuação da força é um contributo para a estabilidade no país, por outro prolonga a dependência política em relação aos países vizinhos, cuja influência nem sempre tem sido positiva – inclusivamente, com diferentes países a apoiarem as fações do PAIGC afeta a Domingos Simões Pereira e ao Presidente (essencialmente a Gâmbia)”, adianta o Briefing. A comunidade internacional mostra-se dividida sobre o início de funções do novo governo ou a realização de novas eleições.

Nem as cerimónias fúnebres da dirigente histórica do PAIGC Carmen Pereira, trouxeram concórdia a Bissau. Antes pelo contrário. Os dois governos – o demissionário e o novo – atropelaram-se tentando ao mesmo tempo encarregar-se das exéquias.

Coube ao representante da ONU em Bissau, Modibo Touré, deixar o apelo aos líderes políticos e forças de segurança: "Neste momento de dor, onde as emoções estão à flor da pele, exortamos o povo, líderes políticos e forças de segurança a manterem a calma e dignidade”.