África Monitor

Análise

Jorge Heitor

Guiné-Bissau: Multiplicam-se reuniões para não chegar a lado algum

Guiné-Bissau: Multiplicam-se reuniões para não chegar a lado algum


"Na Guiné-Bissau, o Estado finge que paga; e os funcionários fingem que trabalham", disse-me um dia o antigo Presidente Luís Cabral. E a situação não será hoje em dia muito diferente do que era há 15 ou 20 anos.

Muitos dos ministérios e repartições públicas não funcionam. Os empregados apresentam-se ao serviço, quando se apresentam, mas quase nada fazem. O país está parado.

Eu não sei se a Guerra d'África, 1961-1974, estava ou não a ser perdida. As opiniões a esse respeito divergem. Mas sei muito bem que, passados 42 anos sobre o 25 de Abril, a Guiné-Bissau não se apresenta em condições de se governar a si própria e de conseguir fugir a um passado de subdesenvolvimento.

O actual Chefe de Estado, José Mário Vaz, detestado por muitos dos seus compatriotas, uma vez que não se consegue manter equidistante das diversas forças em presença, resolveu agora promover uma reunião do Conselho de Estado, para analisar a situação política e social.

Quantas reuniões, porém, não se fizeram já, entre o Presidente, a mesa da Assembleia, o Governo e os diferentes partidos políticos, sem se chegar a lado nenhum?

Esteve uma vez mais em Bissau o antigo Presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, para dar bons conselhos, a uns e a outros, cessou funções Miguel Trovoada, de São Tomé e Príncipe, como representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, e tudo continua na mesma, hoje, como há seis, sete ou oito semanas.


Os deputados do Partido da Renovação Social (PRS) e os 15 que se rebelaram contra a direcção do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) tentam a todo o custo derrubar o Governo de Carlos Correia, substituindo-o por um mais ao seu gosto; e mais de acordo com as tentações hegemonistas de José Mário Vaz.

Há quatro semanas dava-se como iminente a queda do Governo apadrinhado pelo líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, mas a verdade é que ele lá se tem aguentado, numa ténue aparência de estabilidade.

A Guiné-Bissau não anda nem desanda; e o povo desespera, interrogando-se sobre se tem dirigentes capazes de levarem o país a bom porto, ou se não seria melhor viver com um estatuto de curadoria, entregando a administração a alguma entidade externa que na verdade o soubesse gerir.


Depois da partida de Trovoada, que há menos de dois anos se sucedera a José Ramos-Horta, o secretário-geral Ban Ki-moon nomeou para o seu lugar, como representante em Bissau, o antigo ministro maliano Modibo Touré, que aos olhos de certos observadores poderá ser visto como uma bandeira da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

No entanto, nem a CEDEAO nem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) poderão, só por si, fazer algo de substancial na Guiné-Bissau, poderão transformá-la num verdadeiro Estado, se a maioria dos guineenses não se esforçar por isso.

Enquanto as pessoas se considerarem em primeiro lugar muçulmanos ou cristãos, enquanto se portarem essencialmente como militantes do PAIGC ou do PRS, ou de qualquer outro partido, e não como verdadeiros cidadãos da Guiné-Bissau, o país não irá a lado nenhum. Continuará a ser uma autêntica manta de retalhos.

A ONU diz que está envolvida na "construção da paz na Guiné-Bissau", mas isto são palavras, só palavras e nada mais. Se as Nações Unidas, a UNESCO, a CEDEAO, a CPLP ou seja lá quem for não alfabetizarem devidamente a maioria da população e não lhe derem uma consciência cívica, nunca se conseguirá ir a lado nenhum.

Não são um pacto de estabilidade, um Governo abrangente ou eleições gerais antecipadas que irão conseguir, em três ou quatro meses, que as coisas funcionem como deve de ser.


O problema guineense é muito antigo, vem dos tempos da luta armada e dos utópicos sonhos que se tiveram quanto à possibilidade de, em meio século, construir uma nação a partir do passado tão díspar de balantas, fulas, mandingas, manjacos, papéis, felupes, bijagós e outros povos.

Que não haja ilusões. A crise está para ficar, ainda por muito tempo mais. Tudo terá de ser repensado, começado de novo, até que dê certo.


Haverá petróleo e muitos outros recursos, que em princípio seriam uma base para o desenvolvimento, mas sem uma forte consciência nacional, sem um povo unido, nunca se irá a lado nenhum.