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Dívidas deixam Angola e outros “países pobres da OPEP” com pouco petróleo para vender

Dívidas deixam Angola e outros “países pobres da OPEP” com pouco petróleo para vender


Desde 2010, Angola contraiu dívidas de até 25.000 milhões de dólares com a China, que vai pagando através de exportações de petróleo. Não foi caso único: Nigéria, Iraque, Venezuela e Curdistão também estão no mesmo lote. Este grupo é agora conhecido como o dos “pobres da OPEP” – aqueles que sofreram uma forte quebra de receitas devido à descida do preço do petróleo, e que, por terem de pagar dívidas com exportações petrolíferas, têm ainda mais dificuldade em gerar receitas.

Com dívidas totais avaliadas entre 30.000 e 50.000 milhões de dólares, estes países estão agora a renegociar prazos de pagamento, segundo informações avançadas esta semana pela agência Reuters, com base em informações divulgadas publicamente e detalhes dados pelos participantes nas negociações de reestruturação em curso.

"As pessoas tendem a olhar para os volumes de produção (de petróleo) atuais, mas, se foi comprometida toda a sua produção para a China ou outras fontes de empréstimos - então não pode haver investimento para continuar a crescer e (o país em causa) não irá beneficiar de preços mais elevados no futuro", afirma Amrita Sen, da consultora Energy Aspects.

Segundo a Reuters, as dívidas contraídas por Angola nos últimos anos forçam a sua empresa de petróleo estatal, Sonangol, a canalizar quase toda a sua produção de petróleo para reembolsos de dívida este ano. O crédito mais recente, 5.000 milhões de dólares, foi concedido pela China no final de 2015.

A falta de receitas petrolíferas obrigou Angola a procurar financiamento estrangeiro, para tapar o buraco orçamental. No caso da China, o pagamento é feito, ou garantido, através de petróleo – os chamados “negócios pré-financiados”. Com o aumento destes acordos, o número de carregamentos de petróleo que Angola tem disponíveis para venda no mercado caiu mais de 50%.

Segundo fontes do mercado “spot” petrolífero, há 5 anos metade dos 50 a 60 carregamentos mensais despachadas por Angola destinavam-se às petrolíferas – que os pagavam – e 4 a 5 para negócios pré-financiados. Agora, os carregamentos pagos caíram para metade.

As expetativas iniciais das autoridades angolanas, de que a depressão dos preços petrolíferos seria breve, saíram goradas e o país, cuja economia revelou estar inteiramente dependente da produção de petróleo, está agora no segundo ano de quebra de receitas, que teve como consequência uma quebra acentuada do crescimento económico, da entrada e das reservas de divisas, desvalorização do kwanza e inflação galopante.

Segundo o Briefing Africa Monitor de 24 de maio, às dificuldades causadas pela quebra das receitas petrolíferas anos últimos 2 anos, “acrescem as de uma cativação cada vez maior das mais magras receitas para pagamento de empréstimos contraídos no passado.

“As negociações para reestruturação destes pagamentos visarão sobretudo criar maior folga para entrada de receitas orçamentais. A carência de divisas continua a afetar a disponibilização de liquidez aos bancos comerciais, e assim a criar um constrangimento de monta ao crescimento económico e à importação de bens de produção, necessários para a almejada diversificação da economia. Recurso ao mercado de dívida interno continua a ser alternativa de curto prazo preferida pelo governo”, adianta a mesma fonte.

A maior parte dos créditos foram negociados com o petróleo acima dos 100 dólares por barril, nalguns casos quando estava nos 120 dólares. Hoje, com os preços em cerca de 40 dólares por barril, o esforço necessário para remunerar estes empréstimos é 3 vezes maior.

Esta situação virou do avesso as finanças de países como Angola, Venezuela, Nigéria e do Iraque. Dentro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, criou um novo grupo, o dos membros mais pobres.

Estes, em que se inclui Angola, continua a pressionar por cortes de produção para elevar os preços, enquanto membros árabes do Golfo, como a Arábia Saudita, mais ricos e livres de tais dívidas, resistem a tomar qualquer medida, apesar de queda dos preços de 60 por cento nos últimos 2 anos. A próxima decisão sobre a produção da organização terá lugar no próximo mês.