África Monitor

Acesso Livre - Economia

FMI faz retrato sombrio da situação em Angola, mas governo não tem pressa na ajuda

FMI faz retrato sombrio da situação em Angola, mas governo não tem pressa na ajuda

 
Apesar da propalada diversificação da economia de Angola, o setor não-petrolífero continua a abrandar, tal como o conjunto da economia. O Fundo Monetário Internacional faz um retrato preocupante da situação, e deixa recomendações. Mas, surpreendendo mesmo os técnicos do fundo, que não esperavam habilidades negociais em altura de carências, o governo Angolano não mostra pressa em concluir o acordo.

Na conclusão da missão técnica (1 a 14 de junho) a Angola, o FMI deixou um aviso sobre a recente subida do preço do petróleo, que pode não ser sustentada, mas que está a alimentar a confiança do regime em relação à superação da crise financeira. Aliás, no próprio dia em que a missão terminou, o preço do crude recuou para abaixo dos 50 dólares. A recente subida animou muitos produtores norte-americanos de petróleo de xisto (mais barato) a regressar à produção, aumentado a oferta.

“A economia angolana continua a ser severamente afectada pelo choque dos preços do petróleo dos últimos dois anos (…) As perspectivas para 2016 permanecem desafiadoras, apesar do aumento no preço do petróleo nas últimas semanas, sendo que a actividade económica deverá desacelerar ainda mais”, afirma o comunicado final do Fundo.

Outro aviso vai para um eventual “desapertar do cinto”. A austeridade orçamental do governo no último ano, adianta o FMI, foi “importante para apaziguar as preocupações de sustentabilidade” orçamental da dívida pública, mas o país deve ajustar o nível de despesas a receitas petrolíferas mais baixas e são ainda necessárias “mais medidas para reduzir as vulnerabilidades, e será fundamental manter a prudência orçamental com a aproximação das eleições de 2017”.

Além de um abrandamento do sector não petrolífero, o país debate-se com uma inflação homóloga acima dos 29%, reflectindo sobretudo o kwanza mais fraco (-40% face ao dólar desde 2014), e os preços mais elevados dos combustíveis após eliminação das subvenções aos combustíveis.

Depois, o FMI elencou um conjunto de medidas que considera importante Angola adotar no curto prazo: introduzir um imposto sobre transações (IVA), para aumentar arrecadação de receitas, desvalorizar o kwanza, para acabar com artificialidade da taxa de câmbio oficial, e facilitar acesso a divisas.

O mais intrigante, mesmo para os técnicos do FMI, foi a inflexibilidade e falta de pressa das autoridades angolanas em concluir um acordo – que permitiria aceder a um máximo de 1.500 mUSD/ano, total 4.500 mUSD em programa de 3 anos. Isto depois de medidas iniciais no sentido de criar condições a um ambiente favorável para as negociações. A situação está patente no compromisso vago de retomar negociações “no segundo semestre de 2016”.

A atitude, segundo o Briefing Africa Monitor de hoje, é “interpretada como tática negocial, mas também como forma de ganhar tempo para avaliar se preços do petróleo estabilizam aos níveis atuais, continuam a subir, ou regressam a descidas, o que terá um impacto decisivo nos recursos financeiros que o país negociará”.

“A adesão a um programa é também vista como forma de melhorar o grau de credibilidade financeira do país, e por esta via elevar a sua respeitabilidade política e diplomática externa”, adianta. A subida do preço do petróleo para 40-50USD/barril, poderá traduzir-se nalgum alívio a curto-médio prazo.

“Este movimento veio dar razão àqueles que, dentro do regime, mais fortemente se opuseram à ‘ chamada para Washington’. Prolongar as negociações com o FMI pode demonstrar um excesso de confiança neste relativo alívio, mas também pode ser uma maneira inteligente de fazer um compasso de espera até que o preço do petróleo estabilize, e assim aferir mais exatamente as necessidades financeiras a cobrir com dinheiro do FMI”, adianta o Briefing.