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Perda de 244 milhões de dólares nas minas de Cassinga, Angola, para a suíça Trafigura e "Dino"

Perda de 244 milhões de dólares nas minas de Cassinga, Angola, para a suíça Trafigura e "Dino"

 
A Trafigura é um gigante internacional do “trading” de matérias-primas, com relações privilegiadas em Angola, que incluem acordos bilionários com a Sonangol e empresas detidas pelo general Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, ex-chefe das comunicações da Presidência e próximo do presidente José Eduardo dos Santos. Habitualmente discreta, e não-cotada em bolsa, veio agora anunciar uma desvalorização de 244 milhões de dólares no projeto AEMR, para reativação das minas angolanas de Cassinga.

A AEMR é uma parceria entre a empresa estatal Ferrangol e o DT Group, uma das empresas que tem juntado a Trafigura a “Dino”, neste caso para exploração de ferro em Cassinga, próximo da Jamba (província da Huíla). O valor do projeto AEMR foi agora revisto em baixa em 244 milhões de dólares, nas últimas contas da Trafigura.

Sobre a continuidade ou não do projeto, que inicialmente previa um investimento de 900 milhões de dólares, a empresa não se pronunciou. Vários projetos mineiros têm vindo a ser abandonados em África e noutras regiões, dado que os baixos preços dos minérios tornam os investimentos insustentáveis.

Apesar desta e outras desvalorizações de ativos, e do ano difícil nos mercados de matérias-primas, a Trafigura conseguiu aumentar os seus lucros em 6,5 por cento, para 1,1 mil milhões de dólares no ano passado.

O projeto de Cassinga, conforme anunciado pelo governo angolano em 2013, previa o início da laboração em 2017, sendo financiado em partes iguais pelo Estado angolano e pela AEMR. A estimativa de produção era de 20 milhões de toneladas de ferro por ano, e as reservas totais foram avaliadas em 400 milhões de toneladas.

Um levantamento recente, patrocinado pela Swissaid e publicado pelo Africa Monitor Intelligence, sobre as relações comerciais entre empresas de “trading” petrolífero suíças – Glencore, Vitoil, Arcadia, Trafigura, entre outras – e os 10 maiores produtores de petróleo africanos indica que o peso destas empresas é hoje determinante no mercado. Alerta para a frequência, nos negócios nestes países, de “pagamento de luvas, favoritismo e outras manipulações”.

Embora “não dominantes” em Angola, como são noutros países produtores, os “traders” suíços fizeram em 2011 pagamentos de 2 mil milhões de dólares à Sonangol, em contrapartida da compra de petróleo. As compras entre 2011 e 2013 equivalem a entre 2 e 6 por cento dos volumes vendidos pela Sonangol.

Através de uma joint-venture com “Dino”, a DTS Holdings, a Trafigura beneficia de um “quase monopólio” na importação de produtos petrolíferos, mercado de cerca de 3,3 mil milhões de dólares. Dados da ONG Berne Declaration indicam que a Trafigura e “Dino” estão ligados através da Trafigura Pte e a Cochan Pte, ambas sociedades sediadas em Singapura. De ambas nasceu a DTS Holdings, com sede em Genebra (continuar a ler).