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“Sovieticos, cubanos ou chineses” nunca preencheram “vazio” deixado pelos “ultramarinos” naturais de Angola

“Sovieticos, cubanos ou chineses” nunca preencheram “vazio” deixado pelos “ultramarinos” naturais de Angola

Em 2095, um presidente de Angola irá participar num acto de homenagem aos “ultramarinos”, angolanos de ascendência europeia forçados a sair do país com a descolonização. É esta a “atrevida” premonição de Xavier de Figueiredo no seu mais recente livro, “O Último Ultramarino”, lançado a 5 de junho em Lisboa, com base na forma “mais branda” com que em Angola se convive com o passado colonial, em contraste com a adversidade que o mesmo ainda suscita em Portugal.

“Ninguém até hoje conseguiu colmatar o desolador vazio criado pela debandada dos ultramarinos: nem soviéticos, nem cubanos nem agora chineses. Essa falta sempre se sentiu”, disse no lançamento da obra de ficção, em Lisboa, Figueiredo, ele próprio natural do Huambo, antiga Nova Lisboa.

O papel dos ultramarinos era único, referiu, pelo “seu forte apego à terra, trabalho árduo, conhecimento, saberes e paixões que os identificavam com ela. Todos esses predicados, associados ao seu papel de elemento moderador da sociedade angolana e a facilidade com que se teriam adaptado às circunstâncias novas da independência haveriam de ter sido decisivos para que Angola tivesse seguido por caminhos mais venturosos” após a independência.

O regresso destas centenas de milhar de pessoas - brancos e mulatos, sobretudo, que se distinguiam dos “retornados”, nascidos na antiga metrópole que realizavam comissões de serviço nas ex-colónias - deveu-se não à sua vontade pessoal, mas à “leviandade e incompetência que marcaram processo descolonizador”, e poderia ter sido evitado, disse o autor, jornalista com mais de meio século de experiência e fundador de várias publicações de temática africana em Portugal, incluindo o Africa Monitor.

Figueiredo rejeitou ainda o argumento comum de que os resultados desastrosos da descolonização, que culminaram em guerras civis em Angola e Moçambique, se deveram ao carácter “tardio” do processo, contrapondo processos posteriores equivalentes, e bem-sucedidos, na Rodésia (hoje Zimbabué), Namíbia e África do Sul.

Quando à premonição de uma futura presença presidencial numa homenagem aos ultramarinos, trata-se de um “atrevimento”, mas que se baseia na constatação de que este passado já é olhado com “maior serenidade” em Angola, e que para tal basta que “a evolução da sociedade angolana mantenha o mesmo ritmo” nas próximas décadas. Falando na Sociedade História da Independência de Portugal, próximo de um recém-inaugurado monumento aos judeus expulsos de território português no século XVI, o autor rejeitou que esse reconhecimento dos ultramarinos chegue ao ponto de virem a ser “celebrados ou exaltados”.

Menos “optimista” em relação à premonição, o ex-eurodeputado Miguel Anacoreta Correia, a quem coube a apresentação do livro, considerou-se ele próprio um ultramarino, com “respeito e gratidão” por outros referidos na obra, casos dos civis Walter Marques, Costa Oliveira, Carloto de Castro, Pinheiro Silva, Castilho Soares e Castro Fontes, ou dos militares Bettencourt Rodrigues, Pedro Cardoso e Santos e Castro.

“Não é possível fazer o paralelismo entre o seu espírito de fazer e servir a causa pública e o que actualmente se verifica com as elites de poder em Portugal”, disse Anacoreta Correia. “Os países que nos amámos e continuamos a amar, verdadeiramente merece esse acto de justiça” para com aqueles que contribuíram para uma política económica e social de sucesso até 1974 e controlo da situação de segurança.

Admitindo uma “hierarquização social muito dura, em que a componente racial estava presente” - mas rejeitando a existência de racismo estrutural - Anacoreta Correia exemplificou com o facto de ter sido “contemporâneo de liceu de José Eduardo dos Santos”, e, enquanto branco, minoritário em vários dos estabelecimentos de ensino, de vários níveis, por onde passou em diferentes pontos do país.

Estas “novas identidades geradas pela colonização”, defendeu, “não foram tidas em conta na descolonização”. A falta de estabilidade política em Lisboa, onde, num ambiente revolucionário foi conduzida o processo, tirou a Angola “a oportunidade de ser um país maior que a sua geografia”. “Fizemos falta a Angola”, disse.

Editado pela Babel e com prefácio de Jorge Braga de Macedo e posfácio de Justino Pinto de Andrade, “O Último Ultramarino” é a terceira obra literária de Xavier de Figueiredo, e a primeira de ficção. Segue-se a “Huambo - Nova Lisboa - Crónica da Fundação” e “Ceuta - Primeira Conquista de Portugal Além-Mar”, ambos livros de história.