África Monitor

Acesso Livre - Cultura

Paulo Guilherme

Numa foto, um mergulho na época do Marquês de Pombal e na condição do negro em Portugal

 Foram 3 anos de trabalho para chegar a uma foto apenas, num mundo em que as imagens são tão fáceis de obter e abundantes. Mas, mais do que a contemplação de uma imagem, a exposição "Século XVIII: revelar a memória a partir do esquecimento", é um mergulho numa época, a do Marquês de Pombal, e na condição do negro em Portugal.
O ponto de partida do trabalho, disse ao LusoMonitor o autor, conhecido como JRicardo Rodrigues no meio artístico, foi um texto do historiador angolano Filipe Zau, publicado há 4 anos no Jornal de Angola -"O Quinto Neto da Rainha Ginga" – sobre as alegadas origens africanas de umas personagens maiores da história de Portugal.
“Este é um trabalho acima de tudo sobre o racismo e a história de que não temos consciência”, afirma JRicardo. Na Casa Bocage, em Setúbal, esta é a primeira exposição como autor, e “o primeiro passo de um ambicioso projecto visual sobre a Vida, tendo como cenário o século XVIII”.
Em termos técnicos, o trabalho representa uma tentativa de aproximar a fotografia à pintura e ao desenho, em particular aos antigos pintores flamengos. A fotografia foi construídaem laboratório académico com actores de palco, cenários, adereços, caracterização, iluminação e equipamentos fotográficos sofisticados, com apoio de voluntários. O palco foi o palácio de Mafra. O actor brasileiro Thiago Justino interpreta a personagem principal.
Outra referência para o autor, natural de Angola e a residir em Lisboa, foi o quadro “o último interrogatório do Marquês de Pombal” (1890-1891), de José Malhoa, que um jornalista da época considerou uma ofensa à dignidade de um povo, pela maneira como o tema fora abordado.
Para Bruno Ferro, diretor da Casa Bocage e Arquivo Fotográfico Américo Ribeiro, o trabalho evoca o “tempo em que a monarquia absolutista se misturava com o racionalismo iluminista, no qual Sebastião de Carvalho e Melo se destacou como incontornável figura de Estado do Reino português”. Além disso, afirma, “o autor persegue, por pistas que o foram conduzindo e que aqui nos revela, as origens, quase sempre silenciadas, de Marquês de Pombal, representado fotograficamente em cena, de forma imponente, entre as figuras do Espanto e do Medo”.