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“A fundação de Huambo é um momento determinante na afirmação do Estado de Angola”

“A fundação de Huambo é um momento determinante na afirmação do Estado de Angola”

Xavier de Figueiredo, jornalista cuja carreira sempre se focou nos assuntos africanos, acaba de publicar o seu primeiro livro: “Crónica da Fundação: Huambo/ Nova Lisboa”, apresentado na quinta-feira na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa. A obra, prefaciada por Jaime Nogueira Pinto, trata das condições muito especiais da formação da cidade de Huambo, fundada por Norton de Matos em 1912. Esta cidade, rebaptizada Nova Lisboa e, mais tarde, novamente Huambo, é também a cidade natal do seu autor.


Enquanto natural de Huambo, este projecto foi para si mais pessoal, ou mais de cariz académico e historiográfico?


Teria de ser sempre um projecto determinado por elementos de interesse profissional – não propriamente académico, porque eu não sou historiador – mas por uma certa propensão que eu tenho para a história. Eu olhei para a história da fundação de Huambo, em função de pesquisas que eu fui fazendo, e vi naquilo uma riqueza histórica. É um momento muito determinante da afirmação do Estado em Angola. Mas é óbvio que também contou o facto de eu ter identificações com Huambo, de ser a minha terra... As duas coisas estão associadas.

O que é que o surpreendeu mais, entre as descobertas que foi fazendo na investigação para este livro?

Eu julgo que nas pesquisas dei com muitos factos inéditos. Eu conhecia de forma elementar a história da fundação de Huambo, mas, depois de concluídas as pesquisas, concluí que não conhecia nem 5% do que foi determinante, de facto, na sua evolução. Há muitos factos interessantes. Um deles é uma associação muito estreita que existe entre a fundação de Huambo e a construção do caminho de ferro de Benguela, aos quais eu chamo, aliás, irmãos gémeos. Depois, a fundação de Huambo não tem apenas importância em si própria, mas também como parte de um processo que foi determinante naquele momento de grandes tensões, de grandes oscilações regionais, provocadas pelas disputas fronteiriças e pelas repercussões da Primeira Guerra Mundial em África.

A seu ver, a fundação de Huambo foi essencial para o processo de colonização, portanto?

Foi sim, aliás, por uma razão muito simples: os critérios com base nos quais se podia até então reivindicar a posse de territórios em África eram critérios históricos, eram argumentos como a existência de uma ruína. Isso até essa altura serviu para justificar a posse de territórios. A partir do momento em que começa a pôr-se em marcha o processo de fundação de Huambo, isso já não é válido. É preciso dar ocupação efectiva, civil, militar, e que corresponda também àquilo a que na altura se chamava o progresso desses territórios ocupados. E o que se passava era que Angola, em termos de território colonial, era a faixa litoral, não passava muito disso. Tinha havido umas ocupações no interior, mas tudo coisas passageiras e que tinham perdido importância. E portanto com a fundação de Huambo e a construção do caminho de ferro de Benguela, a jurisdição do território de Angola é de facto atirada para o interior.

Quais lhe parecem ser as personagens mais importantes na história do nascimento da cidade?

São vários, mas o personagem central deve ser Norton de Matos. A decisão de fundar a cidade está tomada, mas o elemento que acelera a decisão é de facto Norton de Matos. O que se passou foi que houve uma mudança de regime em Portugal, a monarquia caiu, a república foi implantada, e as políticas da república em relação àquilo que era o Ultramar alteraram-se. Na campanha dos republicanos contra os monárquicos, acusavam-nos de serem ineptos: havia uma aplicação maior dos republicanos relativamente ao Ultramar. Norton de Matos era um republicano, e a aceleração que ele deu ao processo está patente no facto de ele ter chegado em Junho de 1912 a Luanda como Procurador-Geral, em Agosto já estarem publicadas as portarias que criariam a cidade, e em Setembro ele próprio estar presente no acto da fundação da cidade. Por isso sim, Norton de Matos é a figura central.

Podem retirar-se lições da formação desta cidade sobre a colonização de Angola, e sobre a formação do Império Português?

Há uma coisa muito importante que mudou: a colonização de Angola, que também se aplica aos outros territórios, era uma colonização da costa, que estava implantada no litoral - ou seja, do comércio, das feitorias. Com a fundação de Huambo e a construção do caminho de ferro de Benguela, o modelo que é adoptado é novo. É um modelo que se baseia no povoamento por parte de europeus, porque eram muito poucos os que havia ali antes disso, e também na agricultura, e mais tarde as minas, com o comércio a perder importância.

O que é que lhe parece que foi particular na colonização de Angola se a compararmos com outras ex-colónias portuguesas?

Eu acho foram mesmo as ligações que ficaram – não quer dizer que não as haja nas outras ex-colónias, aliás estão muito patentes em Cabo Verde também. Aliás, eu vi há pouco tempo numa cerimónia oficial o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, a pôr em realce aquilo a que ele chamou as ligações sanguíneas entre portugueses e angolanos. Houve muita miscegenação, muitas ligações pessoais, humanas, sociais, e julgo que é isso que explica muito este fenómeno que não é difícil de constatar, de haver, em muitos aspectos, uma identidade comum entre as mentalidades predominantes aqui e as mentalidades predominantes em Angola - na maneira de ser das pessoas. Penso que esta própria atracção que hoje se vê da parte dos angolanos em relação a Portugal, estou a falar neste caso específico dos investimentos, também não é estranha a isso.

Parece-lhe que existem diferenças entre a colonização portuguesa em África e a de outros países europeus?

Eu julgo que as colonizações dos outros países europeus, por exemplo a inglesa, ou a francesa, eram mais colonizações administrativas, militares. Os elementos que as determinavam eram esses. E a colonização portuguesa é mais uma colonização de povoamento, em que de facto há grandes misturas entre as pessoas, e o apego à terra é muito maior. Os investimentos nas colónias inglesas e francesas eram normalmente públicos, as pessoas transferiam os seus rendimentos para as suas metrópoles de então - já os portugueses não faziam isso. Os seus proveitos eram investidos ali. E havia muitos casos de antigos colonos que partiam para se fixarem em Angola, e antes disso alienavam aqui o seu património, os seus bens, para aplicarem lá o dinheiro num negócio ou numa forma qualquer de ganhar a vida.

Relativamente ao seu trabalho enquanto jornalista cujo foco sempre esteve nos temas africanos, parece-lhe que hoje em dia se presta atenção suficiente à África lusófona na imprensa portuguesa?

Não, acho que foi sempre decaindo. O tempo foi fazendo o seu caminho, e hoje posso comparar isso: eu sempre trabalhei nesta área dos assuntos africanos, e posso constatar com grande facilidade que há trinta anos dava-se uma atenção muito constante aos assuntos africanos, nomeadamente aqueles que tinham a ver com territórios que tinham sido colonizados por Portugal até pouco tempo antes. Acompanhava-se: as pessoas tinham de facto um fluxo de informação constante sobre esses assuntos. Essa importância foi definhando. Mas não estranho muito que as coisas tenham sido assim: é o tempo.

Por que é que seria importante dar mais atenção a esses temas?

Portugal, quando iniciou a sua expansão, procurou ir buscar lá fora a força que não tinha aqui, sobretudo para se impor ao seu vizinho espanhol. Foi lá fora acrescentar força. E, aliás, foi isso que em muitos momentos lhe permitiu sobreviver, como quando, durante as invasões francesas, a corte foi para o Brasil. Portanto isso era uma retaguarda importante, e de onde vinham mais valias e recursos que reforçavam a importância que a escassa dimensão territorial daquele país de então não lhe concedia. Mas isso é o passado, portanto já não conta. Agora julgo que conta muito que Portugal consiga estabelecer relações muito estreitas e proveitosas com estes países. Isso é importante e julgo que tem condições para o fazer, não apenas olhando para os interesses comerciais, o que seria lamentável. Pode explorar-se muito mais: as ligações culturais, porque isso sim é único. Interessados em investir em Angola há muitos, agora investidores que tenham características que facilitam essas preocupações, acho que é só Portugal.

Para si, qual é então a importância de continuar a escrever sobre o passado colonial português e de continuar a investigar esses assuntos?

Isso hoje tem uma importância histórica. Para me remeter ao caso de Huambo, Huambo é uma realidade diferente de há quarenta anos. Passou a fazer parte de Angola. Até então era uma história portuguesa, o que se passava ali, e hoje não é. Essa memória foi-se esfumando. Mas o que se passou no período colonial é parte da história de Huambo, e eu julgo que é nas populações angolanas actuais que se nota um interesse crescente pelo seu passado. É uma história deles, mais que uma história portuguesa. Hoje os portugueses sabem muito pouco do que se passou em Tânger, ou em Mazagão, ou em Goa, mas nessas terras ainda se contam muitas destas coisas. Tal como cá em Portugal há uma vaga ideia de que os portugueses estiveram em Malaca durante muitos anos, enquanto que em Malaca ainda se cultiva essa memória, e ainda se consideram herdeiros desse legado. Essas histórias, hoje, serão mais do interesse daqueles países do que propriamente dos portugueses.

Como é que vê o futuro próximo de Angola, com a saída iminente de José Eduardo dos Santos? Parece-lhe que se avizinha um período de instabilidade?

É um momento decisivo, sobretudo tendo em conta o sistema político em Angola, muito inspirado numa figura que tem um papel preponderante na política. E quando é assim, quando há um poder dessa natureza, as instituições estão um pouco esvaziadas da sua razão. E as transições são, assim, um bocado delicadas. Temos exemplos disso pelo mundo. E julgo que é esse o motivo principal das atenções e ansiedades que existem em relação a Angola, é como se vai fazer essa transição, tendo em conta as características do poder em Angola. É um momento de expectativa, não se sabe quando isso vai ocorrer, e também é difícil prever como se passará.

Já tem algum projecto próximo, alguma ideia de temas que pretenda abordar no futuro?

Para esta fase da minha vida, eu tinha pensado escrever uns livros, e não era este. Estava mais interessado em coisas do presente. E depois isto ocorreu assim, quase sem eu ter feito nada nesse sentido. Mas sim, quero retomar esses projectos que tinha e não deixei de ter de escrever outros livros. E hei-de continuar a prestar atenção às políticas africanas actuais.