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Investigação recupera “elo africano” das agências de notícias portuguesas

Investigação recupera “elo africano” das agências de notícias portuguesas


Resgatar o passado das agências de notícias portuguesas foi a missão a que se propôs o jornalista Wilton Fonseca. Num primeiro volume, com Mário Carvalho, focou-se na história das antecessoras directas da Agência Lusa - ANOP e NP. Um segundo, com António Santos Gomes, agora lançado, vai ainda mais para trás, até ao tempo do Estado Novo, em que surgiram as primeiras agências - Lusitânia e ANI - e desvenda episódios inéditos reveladores da importância destas para a relação portuguesa com África.

“Heróis Anónimos II - Jornalismo de Agência, História da Lusitânia e da ANI (1944-1975)” foi lançado na primeira semana de 2017 na Casa da Imprensa, em Lisboa, na presença de alguns antigos jornalistas das primeiras agências que o país conheceu. Presentes estiveram também actuais e antigos colaboradores da Agência Lusa - que ainda hoje, pelas delegações que mantém em Luanda, Maputo, Bissau e Praia, continua a ser um importante elo com África.

É em pleno clima de Estado Novo que surgem a Lusitânia - por iniciativa da Propaganda nacional - e a ANI, esta com capital privado, mas sujeita também à censura prévia da comunicação social pelo regime.

A 31 de Dezembro de 1944, com a 2ª Guerra Mundial a aproximar-se do fim, é inaugurada em Lisboa a Lusitânia, merecendo palavras exaltadoras do Diário de Notícias: “A nova secção da Sociedade Propaganda de Portugal, que a partir de 1 de Janeiro (de 1945) passa a enviar serviço telegráfico noticioso para o Império Português (...) foi ontem de tarde inaugurada, na sede daquele organismo, na presença de membros do Governo e altas individualidades dos nossos meios colonial, económico e literário”. A presidir à cerimónia esteve Marcello Caetano, então ministro das colónias.

Luiz Lupi, primeiro director da Lusitânia, “traçou a acção que vai desenvolver” o serviço “enviando dia a dia para as nossas províncias ultramarinas o relato da vida da Metrópole, o que constitui evidentemente uma bela iniciativa para a política da unidade imperial”, prossegue o artigo do Diário de Notícias, em artigo reproduzido em fac-simile no livro de Fonseca e Santos Gomes.

As fontes contactadas pelos autores, incluindo ex-jornalistas, dividem-se quanto ao mérito jornalístico da Lusitânia, defendendo uns que a sua missão era a exaltação do Estado Novo, e outros que o era verdadeiramente uma agência noticiosa.

Na opinião de muitos, referem Fonseca e Santos Gomes, a ANI, de capital privado, “deveria ser considerada como a primeira agência noticiosa portuguesa de facto, na medida em que a Lusitânia escaparia ao conceito tradicional de agência, devido à indefinição do seu carácter jurídico e à ambiguidade do seu relacionamento com o poder político”. Contudo, e “goste-se ou não do que representou”, adiantam, a Lusitânia teve um papel “pioneiro”.

O livro revela também “embates” da ANI com a censura, já durante o período da Guerra Colonial. Em março de 1964, os Serviços de Censura à Imprensa cortam totalmente telegramas da agência relatando um editorial de Henry Bezanet no jornal francês Aurore, favorável à posição do regime português em relação a Angola.

“Treze ano depois do começo da insurreição”, refere Bezanet no artigo censurado, "os amigos ou simpatizantes dos rebeldes angolanos fazem o balanço dos resultados obtidos. Não é precisamente brilhante, segundo reconhece, com evidente pesar, o jornal Le Monde. Os revoltosos, embora as suas forças estejam relativamente bem armadas e organizadas, mal dominam a quinquagésima parte do território. Não é de desesperar? (...) Uma vez terminada a estação das chuvas - dentro dias, portanto - os bandos terroristas poderão retomar a sua ofensiva, assassinando e mutilando homens, mulheres e crianças, sem que o governo português tenha sequer o direito de reproduzir as fotografias desses crimes atrozes (...) Pois bem, os assassinos às ordens de Holden Roberto podem renovar as suas tristes façanhas. Os soldados portugueses aguardam-nos a pé firme. De resto, o próprio Holden Roberto sabe-o melhor do que ninguém - daí os seus lamentos e as suas recriminações”, conclui Benzenet, citado pela ANI num telegrama que nunca chegaria aos clientes.

Em resposta ao corte, o director da ANI, Dutra Faria, escreve aos serviços de censura com evidente ironia. “Eu, se acaso fosse censor, nos telegramas em questão apenas teria feito reparo e talvez substituído dois horríveis galicismos que lá vêm - e lamentavelmente escaparam à nossa revisão…”, escreve Dutra Faria.

A documentação que serve de base ao livro foi resgatada em vários arquivos, mas, conforme confessam Fonseca e Santos Gomes, ela é “parca”, dado que os arquivos da ANI foram destruídos na sua quase totalidade após a sua venda ao Estado.

No prefácio, Pedro Feytor Pinto destaca a disputa entre os directores da ANI com a censura. “Dutra Faria e Barradas de Oliveira, sem nunca porem em causa a sua lealdade aos princípios, eram dos que lutavam pela divulgação da verdade dos factos, como elemento capaz de melhor fazer compreender o esforço que se realizava para uma solução que se considerava necessária”, refere.

Os autores de "Heróis Anónimos" estão já a trabalhar num  terceiro volume da obra, com documentação complementar.

 
(Na foto, da esquerda para a direita:  António Santos Gomes jornalista e autor do volume 2; Mário Matos Lemos jornalista da ANI; Ricardo Rodrigues, editor; Wilton Fonseca jornalista autor do volume 1 e 2; Mário de Carvalho jornalista autor do volume 1)