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Cabo Verdianos são "mais portugueses" dos imigrantes, mas também Kriolu

Cabo Verdianos são "mais portugueses" dos imigrantes, mas também Kriolu Comparados com os chineses, os europeus de leste ou mesmo outros imigrantes dos PALOP, os cabo verdianos sempre foram vistos como "mais portugueses". A par desta proximidade, foram-se definindo traços de independência cultural, como no crioulo e música rap, segundo o investigador norte-americano Derek Pardue.

"Este estado de 'quase-portugueses' tem sido um desafio, às vezes, para os cabo verdianos exprimirem a sua identidade," explica Pardue, docente na Brown University nos Estados Unidos. Em Cabo Verde, país já descrito por antropólogos como "crioulo pela cor das gentes, branco pelas condições sociais," muitas pessoas continuam, ainda hoje, a identificar-se mais como europeias que como africanas. Em Portugal, este grupo de imigrantes vive, como o descreve o investigador, num "mundo liminal," preso entre a cultura portuguesa generalizada e a cultura cabo verdiana e os seus costumes e práticas.

Visto que nunca foram tratados como completamente separados da cultura portuguesa, ao contrário de outros migrantes, têm a necessidade de se afirmar de outras formas: "Os jovens cabo verdianos marcam-se propositadamente como Kriolu, e portanto fora da história lusotropicalista de hibridismo e estatuto de 'quase-portugueses,' e sim como residentes africanos transnacionais que definem a Lisboa atual." O 'K' marca uma separação da lusitanidade - não crioulo, mas Kriolu, não Cova da Moura, mas Kova M, como lhe chamam os locais. O crioulo é um sinal de diferenciação, e de resistência a ser submetido às categorias de identidade lusas.

Pardue passou ainda bastante tempo junto de rappers de origem cabo-verdiana. Um deles, Chullage, explicar-lhe-ia por que é que preferia fazer rap em crioulo: "Não é apenas que me sinta mais à vontade a fazer rap em Kriolu, é que quero que toda a gente o ouça e vá à procura de sentido. Foi o que fizemos quando ouvimos os Public Enemy pela primeira vez. Não percebíamos inglês. Fomos procurar. As pessoas podem fazer isso com o Kriolu." A língua torna-se então não só nunca forma de se afirmar enquanto separado e independente, mas também numa obrigação para os outros de se relacionarem com o crioulo pelos seus meios - uma divulgação e um apelo ao exterior.

Segundo o autor deste estudo, Portugal pode ganhar, e “nalgumas formas, já provou ter,” uma posição de liderança na política de imigração europeia. "A 'Nova Europa' trata-se de imigração de estados-nação multiculturais," afirma Derek Pardue. "O caso dos cabo verdianos pode conter lições para como os indivíduos, os grupos comunitários e as agências estatais devem tratar os desafios dos cruzamentos culturais. E parece-me que Lisboa é o lugar perfeito para examinar estas dinâmicas."

 

 

(foto: www.uccla.pt)