África Monitor

Acesso Livre - Cultura

Xavier de Figueiredo

Crítica: "Novembro", revisitação da deriva portuguesa

Crítica: "Novembro", revisitação da deriva portuguesaNovembro revela um romancista – no melhor que o género deve ter para cativar a leitura: construção, estilo, vivacidade, etc. Não é por acaso (ou por nada) que já vai na 3ª edição. Com Novembro, Jaime Nogueira Pinto, o autor, acrescentou aos seus méritos de historiador e de ensaísta, que obras como Salazar, Nuno Álvares Pereira e Nobre Povo ilustram, o primor de um romancista. De que se espera produção profícua.

O back dropp de Novembro é, identificado na sua singeleza, o 25 de Abril.  Dos seus mais remotos primórdios, como o “pequenino pormenor” de ter sido uma acção cujo elemento impelidor foi uma manifestação de tipo corporativo dos “capitães sem sono”, até ao “De Profundis” por um Império que merecia, pelos rios de sofrimento e sangue que custou ao longo de séculos, ter acabado de forma mais honrosa. Havia de acabar, mas não havia necessidade de ser assim. Quanto mais não fosse, para proveito de povos e de terras de que Portugal, de novo cingido à sua exígua dimensão europeia, se afastou então.

Os ingleses também chamam faction a uma obra como Novembro. Em sentido literal, uma miscelânea de factos e ficção, algo que permite a quem escreve dar largas à sua criatividade e imaginação, sem, no entanto, se poder afastar mais do que o estritamente recomendável de critérios de exactidão substantiva.

É sabido que Jaime Nogueira Pinto viveu aqueles conturbados tempos que vieram na correnteza da celebrada revolução dos Cravos. Em Portugal, em Angola, na África do Sul e em Espanha – tudo lugares pelos quais “passa” Novembro. E se também é verdade que há ali personagens cujas representações lembram, pelo menos em certas facetas, “pessoas de carne e osso”, como o próprio Jaime Nogueira Pinto (o Eduardo, no seu caso), então há que ver Novembro como uma revisitação romanceada de acontecimentos e de vidas verdadeiras – que lhe serviram de inspiração.

Nas suas vivências em Angola, o alferes Eduardo, despachado para lá em condições algo parecidas com as que na realidade levaram Jaime Nogueira Pinto, vive acontecimentos e relaciona-se com pessoas (e respectivas circunstâncias) que não podem deixar de ser vistos como reminiscências da tragédia que foi a chamada descolonização do território. Houve muitos Norbertos dos Santos, tipos nascidos em Angola, portugueses pelo orgulho de um “Portugal Maior” mas inconformados para sempre com a rebaldaria que então avassalou o país.

Aqui reside outro elemento da importância de Novembro, embora este de natureza política. É uma digressão impressiva (ou uma revisitação, conforme os casos) por tempos e acontecimentos que desenvolvendo-se em sítios e planos diversos, foram pasto de derivas pelas quais Portugal ainda hoje paga.