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Bairro da Kilamba, em Luanda, exemplo de projetos chineses “desligados” da realidade local

Bairro da Kilamba, em Luanda, exemplo de projetos chineses “desligados” da realidade local


Um jornalista e um arquiteto holandeses estão a estudar no terreno diferentes projetos promovidos pela China em África. Para já, acham duvidoso que a “importação” de modelos chineses, sem consideração pela realidade africana, venha a ser bem sucedida. E apontam o bairro residencial de Kilamba, em Luanda, como exemplo de construção “desligada da realidade”.

“Olhando para Leste: Urbanismo Chinês em África” é o resultado da pesquisa realizada desde 2013 por Michiel Hulsof e Daan Roggeven, arquiteto. Além do ensaio, deu origem a uma exposição que está patente em Nova Iorque. O objetivo é documentar as muitas mudanças trazidas pela urbanização à chinesa e afirmam ser “duvidoso” que o modelo funcione.

“Basicamente, as realidades políticas e económicas na África e na China são demasiado diferentes para uma abordagem simples de `cortar e colar´", afirmam no ensaio. “Um dos exemplos mais impressionantes” do envolvimento chinês em África, Kilamba é um desses casos em que “o modelo urbano é copiado”. “Vemos um claro desligar entre as condições locais e os modelos supervenientes”.

“Projeto residencial de grande escala para acomodar 500 mil pessoas, foi construído pelo China International Trust and Investment Corporation. O complexo de desenho repetitivo é muito semelhante a únicas habitacionais em construção em toda a China, desde Xiamen a Kashgar”, afirmam.

O gigantesco bairro de Kilamba tem sido sinónimo de problemas desde o início, que começaram com atrasos na entrega das casas, denúncias de favoritismo nas transações e, mais recentemente, problemas na qualidade da construção e no funcionamento das infraestruturas.

As empresas chinesas têm estado cada vez mais envolvidas em grandes projetos no continente, desde autoestradas, a caminhos-de-ferro, criação de zonas económicas especiais e projetos residenciais em grande escala. Os modelos são invariavelmente projetos já implementados na China, até ao pormenor dos materiais utilizados (importados). O desenvolvimento e financiamento é assegurado pela China.

Os autores do estudo salientam ainda que a influência chinesa vai mesmo além do edificado. A televisão chinesa CCTV está a transmitir em todo o continente, enquanto se multiplica o número de institutos Confúcio, onde um número cada vez maior de estudantes aprende a língua chinesa.

A construção desenfreada em cidades como Luanda e Maputo tem levantado preocupações quanto à preocupação do património edificado, sobretudo do tempo colonial, e à possibilidade de que estas cidades venham a ficar “desfiguradas” num futuro próximo.