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Banido por equívoco, livro de angolano António Pinto regressa 40 anos depois

Banido por equívoco, livro de angolano António Pinto regressa 40 anos depois


Por Emmanuel de Oliveira Cortês
 

“13 Anos de Luta Armada Porquê?”, de António Pinto, tem tido uma relação difícil com os poderes instalados - primeiro a Administração Colonial Portuguesa, mais tarde o regime do MPLA, que o baniu por equívoco relacionado com o título. 40 anos depois da primeira edição, o livro regressa agora aos escaparates. À segunda, será bem recebido, finalmente? 

Ricardo Rodrigues, que comercializa o livro em Portugal, recorda ao Africamonitor.net ter recebido uma chamada telefónica de António Pinto, que tinha “urgência” em promover o seu livro anteriormente banido em Angola. Tudo por causa de um equívoco com o título - o "Luta Armada Porquê" foi, numa altura em que a revolução e o início da guerra civil começavam a causar carências de toda a ordem, lido como um "Para Quê". Ou seja, teria feito sentido a luta, quando a situação não tinha melhorado, antes pelo contrário?

Apesar do sucesso na venda do livro na época, adianta Rodrigues, emergiram vozes em Angola que presumivelmente não tinham conhecimento do conteúdo, mas que questionaram o pensamento do autor, acreditando que ele havia colocado em causa a luta armada.

Com a purga iniciada em 1977, sob o regime do MPLA, António Pinto sentiu-se ainda mais marginalizada pelo regime pós-revolucionário. No entanto, segundo o editor do livro, Pinto não abandonou os seus ideiais. Mesmo acreditando que o caminho trilhado em Angola poderia seria diferente do atual, viu a necessidade de reeditar a obra, refletindo sobre a luta armada de libertação e a conquista de independência.

A obra de Pinto, jornalista e docente universitário, retrata a luta pela independência, protagonizada por MPLA, FNLA e UNITA. Aborda também os movimentosanti-coloniais em Moçambique e Guiné-Bissau, até ao 25 de Abril de 1974 em Portugal, que abriu caminho às independências.

O livro aborda q questão das classes sociais em Angola, entre os anos 1961 e 1974, relações sociais entre brancos e negros, que melhoraram nos anos seguintes após o início da luta armada iniciada em 1961, a expansão escolar nos ano 1960-1970 e aumento da presença de quadros africanos na função pública. Contudo, Pinto aponta que o segmento populacional mais pobre e que mais sofria com a discriminação social foi a população negra.

A obra
 inclui um fac-simile de uma carta da autoria de António Pinto dirigida, a 23 de Janeiro de 1975, à delegação do MPLA, em Luanda, em que anuncia o lançamento da edição do livro, e também um fac-simile da resposta do MPLA, assinada pelo membro do Bureau Político, Lúcio Lara.

António Pinto nasceu em Gabela-Amorim, província de Cuanza-Sul a 11 de Dezembro de 1937. Licenciado em Direito no ano de 2010, e tendo trabalhado como jornalista entre 1998 e 2012, António Pinto conta com mais de 500 trabalhos na imprensa angolana. Reformado, vem leccionando na Universidade Independente, consultor jurídico e advogado, também inscrito na Ordem dos Advogados de Angola.