África Monitor

Acesso Livre - Cultura

Paulo Guilherme

Luanda resiste no adeus a mais um pedaço de arquitetura colonial

Portugal e as suas administrações coloniais deixaram um rico e diversificado património arquitectónico em Angola, Moçambique e outras ex-colónias. Hoje, sob a lei dos petro-dólares e do betão, muito desse património que ocupa o centro de Luanda ou Maputo está sob ameaça. O mais recente exemplo é o teatro Elinga, na capital angolana.
Mas, se o Mercado do Kinaxixe, um marco da arquitetura modernista luso-tropical luandense foi abaixo sem luta, desta vez a capital angolana está a mobilizar-se contra o despejo do grupo de teatro que dá hoje vida a um centro cultural no Elinga, e à iminente demolição.
No início de abril, o site Central Angola lançou uma campanha no facebook para travar a demolição do edifício histórico. Luaty Beirão, que tem dado a cara por uma juventude descontente com o regime, chama-lhe “eventualmente o lugar mais transversal de Luanda”. Apenas ali “podem coabitar os empertigados com os maltrapilhos, os da urbe com os mussekados, os locais e os estrangeiros, os artistas e os banqueiros, enfim, o mosaico completo de todas as classes e subclasses que constituem a nossa sociedade”.
No futuro do Elinga, que ameaça ter a mesma sorte do mercado do Kinaxixe, joga-se o de outros edifícios e sítios históricos que foram classificados por alguma razão, casos do Challet, da Biker, da Casa do Óculo, da Fortaleza de S. Miguel, do Palácio de Ferro, da Casa de Alfredo Troni, da Livraria Lello, da Estação de Caminhos-de-ferro da Cidade Alta, do Grande Hotel, da Rua dos Mercadores, “dos 14 sobrados que ainda não foram vítimas da fúria demolidora do mercado imobiliário”, diz Beirão.
Classificado património histórico em 1981, o Elinga torna-se agora numa espécie de linha vermelha. Isto, diz Beirão, por ser o mais “consensual no que concerne ao sentimento de perda, pelo simples facto de termos construído ao longo dos anos uma ligação emocional íntima (pois vivida na primeira pessoa) com essa magnífica peça do nosso património histórico”. “Mais facilmente seremos movidos a esboçar um gesto de resistência que seja para salvar o Elinga do que para salvar o Challet que certamente a esmagadora maioria dos kaluandas nunca sequer ouviu falar, apesar de ser o edifício adjacente”, afirma.
Além de uma petição on-line, destinada à Assembleia Nacional no dia 18 de abril, dia internacional da UNESCO para os sítios históricos e património, foi entregue no Ministério da Justiça uma providência cautelar. O objetivo é impugnar um ato administrativo considerado ilegal e abusivo.
Apesar de desclassificado, o edifício do século XIX é parte importante da história de Angola. Enquanto escola, albergou intelectuais angolanos como Cónego Manuel das Neves ou Nito Alves. Vítimas anteriores do “gangue do betão”, palavras de Reginaldo Silva, incluem o Palácio de Dona Ana Joaquina, do século XVII.

Mais betão
O projeto imobiliário a nascer ali prevê um edifício de escritórios, com supermercado e parque de estacionamento, um género que se vai tornando vulgar na cidade. Os promotores prometeram incluir uma “sala de espetáculos moderna”.
Construída para 500 mil habitantes na época colonial, a cidade tem hoje entre 5 e 6 milhões de habitantes, um quarto da população angolana, e todos os problemas que advêm do sobrepovoamento. Enquanto o centro da cidade se densificou, com a multiplicação de imóveis de grande altura e a concentração extrema de população, com prejuízo para a qualidade de vida, aquilo que há cerca de 10 anos eram as imediações da cidade está hoje cheio de pessoas e construções.
Para tentar resolver a situação, as autoridades multiplicaram o número de autocarros em circulação, criaram mais parques de estacionamento e avenidas mais largas. Encorajam ainda os habitantes a instalar-se nas novas cidades, construídos em grande parte por empresas chinesas.

“Nova” Maputo
Maputo vive uma situação muito semelhante. A China está a construir 5.000 habitações, através do Fundo para o Fomento da Habitação. Ana Carolina Cortes, do site espanhol de arquitectura La Ciudad Viva, acusa o projecto de estar desligado da realidade local, e de não beneficiar a economia moçambicana. É o património urbanístico da era colonial "sacrificado" aos interesses comerciais.
Foi em 2011 que se soube que a empresa chinesa Henan Gou Ji ia construir estas habitações em Moçambique, que trariam mais de dez mil postos de trabalho ao país. No entanto, o projecto chinês consiste em planos feitos na China, materiais importados, e equipas chinesas. A China tem assumido um papel cada vez mais significativo no sector da construção em África, e só em Moçambique já participaram em projectos de estradas nacionais, do principal aeroporto nacional, e mesmo de edifícios do Estado.
Segundo a arquitecta Ana Carolina Cortes, que vive e trabalha em Maputo, o trabalho da empresa chinesa é desajustado das necessidades e da cultura moçambicana. Traçando a história arquitectónica da antiga Lourenço Marques, sublinha a especificidade do urbanismo moçambicano: desde a época colonial que a cidade se desenvolveu de uma forma muito particular, com um centro urbanizado, a cidade de Cimento, e, ao redor, construções informais a que chamam a cidade de Chapa e Canhiço.
É esta variedade de formas e estilos que, para Cortes, caracteriza Maputo. Com a pressão para a construção de habitação e escritórios no centro de Maputo, esta configuração começou a perder-se, e "sacrifica-se o património" pela nova construção.
O património arquitetónico, em particular modernista, da era colonial portuguesa tem vindo a ser objeto de novos estudos, caso de "Maputo, Topologia de um Lugar", de João Sousa Morais.