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"Pequeníssima fagulha" de Luandino Vieira a caminho de Luanda

"Pequeníssima fagulha" de Luandino Vieira a caminho de Luanda

 

"Uma pequeníssima fagulha que precisa ser soprada". É assim que Luandino Vieira, considerado um dos fundadores da literatura angolana moderna, se refere ao seu mais recente livro. São "12 anos da vida de uma pessoa", um conjunto de textos escritos na prisão na década de 1960. E em breve serão editados em Luanda.

"Papéis da Prisão" foi apresentado na Fundação Gulbenkian a 24 de Novembro: um conjunto de documentos escritos por José Luandino Vieira durante os anos em que esteve preso- de 1962 a 1971 – não contando, portanto com as prisões anteriores (1959/61).

O autor de “Luuanda”, obra que o administrador da Gulbenkian, Guilherme de Oliveira Martins, considerou como “fundadora da moderna Literatura Angolana” recordou a vida nas prisões coloniais. Espera-se que, em Luanda, o livro não sirva como pretexto para reuniões de jovens que discutam formas de comunicar entre si dentro das prisões, clandestinamente. 

O escritor, a residir em Portugal, Vila Nova de Cerveira, desde 1992, disse que este “Papéis da Prisão”, inédito, “não é um livro, são doze anos da vida de uma pessoa”.

Afirmando que teve muitas vezes a tentação de queimar todos aqueles papéis, onde se incluem cartas, textos, desenhos, mensagens recebidas de outros presos, pediu “a quem ler este material que o faça não como um livro, mas como 12 anos da vida de uma pesoa, multiplicados por cada segundo que, nesses 12 anos, eu multiplicava por tudo quanto me vinha à cabeça – e nem sempre eram coisas recomendáveis”, salientou.

Uma equipa do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra ajudou-o a organizar todos os seus papéis. Margarida Calafate Ribeiro, Roberto Vecchi e Mónica Silva seleccionaram partes de um total de 17 cadernos em conjunto com o autor, tendo, em conjunto fixado o texto final.

Mas Luandino quis assumir a responsabilidade total da obra: “fui eu que recolhi os papéis, fui eu que montei e ajudei a montar e depois desenvolver as nossas redes de comunicação no interior das cadeias. No pavilhão prisional da PIDE, na quarta esquadra, na cadeia central da PSP em Luanda, na cadeia policial da polícia judiciária na avenida do Hospital”.

Luandino disse ainda que se sentiu convencido “ a deixar publicar isto antes de morrer, por duas razões: porque, ao reler-me, encontro em tudo ainda uma pequeníssima fagulha de qualquer coisa que precisa de ser soprada, e porque publicar depois de morto é muito fácil, ninguém assume a responsabilidade”.

Mesmo durante a longa entrevista ao grupo que com ele trabalhou – faz parte do volume editado pela Caminho - os “papéis da Prisão”, Luandino Vieira nunca se referem à situação actual de Angola. Mas “às vezes emociono-me. Não é a correspondência da familia, são pequenas coisas, a memória tem-nas lá submersas mas reaparecem e fico emocionado", diz Luandino.

"Como é possível isto? Como foi possível fazerem-me isto ou eu fazer isto? Há qualquer coisa que ainda está vivo nisso e que, de repente, nos emociona de novo. Um ser humano nunca está esgotado” conclui José Luandino Vieira, que foi peso pelas autoridades coloniais por escrever livros.

“Papéis da Prisão” deverá ser apresentado em Luanda, estando Rui Vieira Nery, director do programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas, já em contacto com as autoridades governamentais angolanas e com a União de Escritores Angolanos.