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Sociólogos da Universidade de Coimbra acusados de legitimar violência em Cabo Verde e Guiné-Bissau

Sociólogos da Universidade de Coimbra acusados de legitimar violência em Cabo Verde e Guiné-Bissau


Um conjunto de investigadores do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, dirigido pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos, foi a Cabo Verde e à Guiné-Bissau estudar a delinquência juvenil. Financiada pelo Estado português, a investigação vê-se agora no centro de uma intensa polémica. O investigador de origem moçambicana Gabriel Mithá Ribeiro acusa os autores de terem vindo legitimar a violência.

“Doutores em delinquência” é o título do artigo publicado por Mithá Ribeiro, do Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL,
no jornal Observador sobre o estudo “Jovens e trajetórias de violências: os casos de Bissau e Praia”, em que as autoras “Sílvia Roque e Kátia Cardoso são cristalinas no par de grandes conclusões” do trabalho de campo.

Concluem ser necessário “enfrentar a progressiva e consequente deslegitimação e criminalização da violência”. Para Mithá Ribeiro, tal equivale a dizer que “a violência social e política é legítima, útil e desejável como atestam as evidências empíricas de Cabo Verde e da Guiné-Bissau”.

Outra conclusão extraída pelo investigador, é que “os pensamentos e as práticas políticas sem violência, mesmo nas democracias, não passam de manifestações menores ou cínicas, nem que para contrariá-las seja necessário glorificar a delinquência juvenil”. Infere-se, afirma, “que o CES legitima cientificamente o terrorismo”.

Na prática, o estudo “deteta em jovens delinquentes das cidades da Praia e de Bissau uma miríade de afro-românticos Che Guevaras suburbanos, a fonte da esperança da transformação futura para melhor daquelas sociedades”. Recorre depreciativamente ao conceito adjetivado de “paz liberal”, a paz social “que supostamente domina e perverte as sociedades da atualidade, garantida à custa da opressão dos desfavorecidos e da força policial”, causa da “violência estrutural”.

“De acordo com a visão científica em vigor no CES, esse tipo de paz social deve ser substituído por um outro. Desta feita os novos amanhãs que cantarão talvez espoletem em África e Coimbra será finalmente libertada de opressões liberais, neoliberais e de uma polícia opressora ao serviço dos ricos”, escreve Ribeiro.

Estas “teses científicas de orgia da violência”, salienta Mithá Ribeiro, são desenvolvidas no âmbito do Núcleo de Estudos para a Paz do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. “A ficção de Orwell foi suplantada em rigor pelos cientistas sociais”.

O investigador moçambicano vai mais longe e acusa o centro de investigação de Boaventura de Sousa Santos e de José Manuel Pureza, entre outros, de se servirem da ciência, “transformando uma universidade pública em barriga de aluguer e utilizando o erário público destinado ao financiamento à investigação para legitimar, sofisticar e exportar a violência social e política”.

“Na impossibilidade de fazer germinar tais barbaridades em Coimbra, empenha-se em exportá-las para Cabo Verde e Guiné-Bissau, como se estas e outras sociedades africanas necessitassem de mais convulsões e violências. Se esta atitude não constitui uma afronta da Universidade de Coimbra à inteligência mais comum e à vida quotidiana dos africanos, resta-me questionar a utilidade das independências”, adianta.

O investigador questiona mesmo que a Fundação para a Ciência e Tecnologia considere o CES um laboratório associado, atribuindo “avultados milhões de euros ano após ano. “É assim que o governo português vem garantindo, promovendo e investindo na estabilidade da vida social, na qualidade das suas instituições e na melhoria das relações com outros estados soberanos? Os governos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau não têm nada a ver com o assunto?”

Logo após a saída do estudo, em 2012, Mithá Ribeiro publicou uma crítica ao mesmo. Nunca teve resposta, relata.

No seu livro publicado em 2013,
"O Colonialismo Nunca Existiu", Mithá Ribeiro deixa "uma mensagem clara de recusa da violência".