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Construção chinesa ameaça património urbanístico da antiga Lourenço Marques

Construção chinesa ameaça património urbanístico da antiga Lourenço MarquesA China está a construir 5.000 habitações em Maputo através do Fundo para o Fomento da Habitação - Ana Carolina Cortes, do site espanhol de arquitectura La Ciudad Viva, acusa o projecto de estar desligado da realidade local, e de não beneficiar a economia moçambicana. É o património urbanístico da era colonial "sacrificado" aos interesses comerciais.

Foi em 2011 que se soube que a empresa chinesa Henan Gou Ji ia construir estas habitações em Moçambique, que trariam mais de dez mil postos de trabalho ao país. No entanto, o projecto chinês consiste em planos feitos na China, materiais importados, e equipas chinesas. A China tem assumido um papel cada vez mais significativo no sector da construção em África, e só em Moçambique já participaram em projectos de estradas nacionais, do principal aeroporto nacional, e mesmo de edifícios do estado.

Segundo a arquitecta Ana Carolina Cortes, que vive e trabalha em Maputo, o trabalho da empresa chinesa é desajustado das necessidades e da cultura moçambicana. Traçando a história arquitectónica da antiga Lourenço Marques, sublinha a especificidade do urbanismo moçambicano: desde a época colonial que a cidade se desenvolveu de uma forma muito particular, com um centro urbanizado, a cidade de Cimento, e, ao redor, construções informais a que chamam a cidade de Chapa e Canhiço.

É esta variedade de formas e estilos que, para Cortes, caracteriza Maputo. Com a pressão para a construção de habitação e escritórios no centro de Maputo, esta configuração começou a perder-se, e "sacrifica-se o património" pelo bem do desenvolvimento.

Esta nova urbanização chinesa encontra-se rodeada de construções tradicionais, com casas pequenas e hortas de subsistência. Já o condomínio, por sua vez, separado do exterior por muros, com guardas nos portões e circuitos de vigilância, parece pensado para uma realidade diferente.

 

Novos estudos, novas ameaças

O património arquitetónico, em particular modernista, da era colonial portuguesa tem vindo a ser objeto de novos estudos, caso de "Maputo, Topologia de um Lugar", de João Sousa Morais.

Em Luanda, a urbanização desenfreada também tem levado à criação de alguns grupos locais de defesa do património.

Depois da demolição do Mercado do Kinaxixe, o mais recente exemplo da pouca salvaguarda do património edificado da capital angolana foi o do Teatro Elinga.