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Se nunca leu nenhum destes 5 escritores, não sabe nada de literatura lusófona

Se nunca leu nenhum destes 5 escritores, não sabe nada de literatura lusófonaA literatura lusófona tem alguns dos seus grandes nomes nos galardoados com o Prémio Camões ou o Nobel José Saramago. Mas há escolhas mais inconvencionais quando se procura autores que representem bem a literatura dos países de língua oficial portuguesa. O professor Francisco Topa, da Universidade do Porto, que aí ensina nas áreas da literatura brasileira e da literatura africana de expressão portuguesa, oferece algumas propostas.

 

1. Machado de Assis

"Importuna coisa é a felicidade alheia quando somos vítima de algum infortúnio." in O Parasita Azul

Autor incontornável da literatura brasileira, amplamente considerado o maior autor nacional, Machado de Assis pode ser uma escolha pouco original, o que não o torna uma escolha menos necessária. A obra deste escritor do século XIX espalha-se por quase todos os géneros literários, mas são os seus contos que Francisco Topa mais vivamente recomenda. "Os contos de Machado de Assis são formas inteligentíssimas - e às vezes cruéis - de fazer perguntas sobre os enigmas, contradições, fraquezas, perversões do ser humano," afirma o professor. "Escritos há mais de cem anos, são eternos."

 

2. Luandino Vieira

"Minha estória. Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e estes casos passaram nesta nossa terra de Luanda." in Luuanda

Escritor angolano nascido em Portugal, José Luandino Vieira combateu pelo MPLA e esteve preso no Tarrafal. Em 2006 rejeitou o Prémio Camões, vir-se-ia a saber, por se considerar um "escritor morto", que já não produzia novos trabalhos. O seu livro de contos de 1978, Macandumba, é a obra que o professor escolhe sublinhar.

Em conjunto com os dois autores seguintes, Francisco Topa considera que os três melhor representam a literatura africana de expressão portuguesa, pela sua capacidade de colocar a mesma questão: "Como se define a identidade de cada um e de um povo? O que nos une e nos separa do outro, dos outros? Como se articula o projecto de cada um com o projecto de uma nação?"

 

3. Ruy Duarte de Carvalho

"Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro." in Como se o Mundo Não Tivesse Leste

Português de nascimento, também Ruy Duarte de Carvalho é um autor angolano, simultaneamente cineasta e antropólogo, autor de "Como se o mundo não tivesse Leste," em 1977. Passado "numa espécie de tempo mítico," o livro utiliza uma linguagem poética para colocar o problema da identidade. Falecido em 2010, o autor residia na Namíbia à data da sua morte, tendo passado, porém, por Portugal, Angola, Moçambique e Brasil.

 

4. Manuel Rui

"Mas porque é que eu não posso ficar nesta casa? Se eu sou de Angola. Também não sei a tua terra e quem sabe se já passei por lá, comi, dancei, bebi e um filho dessa terra, fugido para não ser circuncisado e vir ajudar no colono e depois agora no tal estado, vem querer receber na casa?" in Rio Seco

Manuel Rui é o autor angolano de "Rio Seco." Nascido em Huambo e formado em Coimbra, também o seu trabalho se alarga por vários géneros diferentes, e é marcado pela ironia e pelo humor.

Trata-se de uma escolha que Francisco Topa diz "não será ainda consensual, mas o tempo trará a serenidade que nos permitirá ver isso mais claramente." Passada no tempo da guerra civil, a obra de Manuel Rui exprime com recurso à sátira os eventos decorridos após a independência de Angola.

 

5. João Cabral de Melo Neto

"A cidade é passada pelo rio / como uma rua / é passada por um cachorro; / uma fruta / por uma espada." in O Cão Sem Plumas

O único poeta a caber nesta lista, João Cabral de Melo e Neto foi diplomata brasileiro, e inaugurou uma forma de fazer poesia nova no Brasil. Francisco Topa explica a sua escolha: "Reduzida ao essencial, à palavra-coisa, a poesia volta a ter capacidade de dizer o mundo, do Nordeste do Brasil, mas também de toda a parte, porque nele está o homem reflectido."