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Acesso Livre - Cultura

Leston Bandeira

Silêncios de ontem do jornalismo na Guerra Colonial

Silêncios de ontem do jornalismo na Guerra Colonial


“O Jornalismo Português e a Guerra Colonial”, de Silvia Torres, não tem uma conclusão. Mas tem uma “legenda” muito verdadeira: “Esta obra inclui silêncios de ontem, análises de hoje e lições para o amanhã”.

Na realidade, muito poucos dos jornalistas daqueles 13 anos de guerra escreveram sobre ela. A não ser comunicados devidamente sancionados pelos comandos militares, pela PIDE e por outros organismos semelhantes. E daí vêm as mais díspares análises, em que todos são uma espécie de “vitimas”.

O silêncio de ontem foi assim revelado, e a obra tem o mérito de colocar a nú um período do jornalismo português demasiado acomodado. Todavia, esses mesmos jornalistas que se esqueceram sempre de tentar ouvir o outro lado da guerra, mesmo depois do 25 de Abril, ficaram-se muito pelo silêncio, atentos às diversas opções políticas que os vários poderes que se ergueram nos novos países foram definindo.

Este livro vem, todavia, abrir o caminho para a discussão desses comportamentos. Como diz Carlos Matos Gomes, na contra-capa, ele é “um exterminador implacável de lugares comuns e de ideias feitas sobre a Guerra Colonial e também, por arrastamento, sobre o jornalismo em geral e sobre o jornalismo de guerra em particular”.

O livro aborda igualmente os órgãos de comunicação social das ex-colónias, que, à semelhança do jornalismo da “Metrópole” falava muito da guerra no Vietnam e nada daquela que existia dentro dos territórios onde existiam.

Lançado esta semana, o livro recupera um tema já glosado por Silvia na sua tese de mestrado, tendo, nessa altura, salientado sobretudo o caso “Notícia”, de Angola, como o jornal que mais destaque havia dado, depois de Charula de Azevedo, o grande dinamizador do projecto, à Guerra Colonial.

Editado pela Guerra & Paz, o livro de Silvia Torres é composto fundamentalmente de depoimentos de ex-jornalistas que confessam nunca ter escrito sobre a guerra colonial, apontado para esta ausência razões de vulto: a censura e as suas diversas vertentes, nomeadamente, a militar, a PIDE e os proprietários dos órgãos de comunicação social da altura.

Houve, todavia, entre as centenas dos jornalistas que trabalharam no chamado “Ultramar”, alguns que, com inteligência, conseguiram muitas vezes levantar o tema. É pena que ninguém se tenha lembrado de Sebastião Coelho e das suas crónicas transmitidas, de uma forma geral, em quase todas as estações emissoras de Angola.

Talvez porque este verdadeiro mestre da Rádio em Angola, tal como Charula de Azevedo foi o grande mestre da imprensa, esteve preso durante dois anos, completamente isolado, por ter sido considerado “subversivo”, provável membro do MPLA. O que veio a confirmar-se depois do 25 de Abril.