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Acesso Livre - Cultura

UCCLA quer lembrar que lusofonia tem história comum para além de economia

Com grandes investimentos angolanos em Portugal, brasileiros em Angola e por aí em diante, é de economia que hoje se fala mais vezes quando se fala no espaço lusófono. Há 4 meses na liderança da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Vítor Ramalho quer pôr no centro da discussão a memória dos povos, começando pelos ex-alunos da Casa de Estudantes do Império. Pontos fortes da agenda do novo secretário-geral da UCCLA são a avivar a "memória do que foi a luta comum dos povos [lusófonos] por um futuro de liberdade" e criar relações "numa perspectiva que não se limite às relações económicas e financeiras", segundo disse ao LusoMonitor. Vítor Ramalho quer sobretudo recuperar uma memória, que existe apenas em alguns, o que "passa sobretudo por manter muito vivo o projecto da lusofonia, sem se confinar às relações económicas e financeiras, apesar da importância destas", vinca. Para tal, Vítor Ramalho pretende homenagear os antigos alunos da Casa de Estudantes do Império, instituição fundada em 1945 e por onde passaram personalidades que tiveram um papel importante na luta pela independência das ex-colónias portuguesas. Nas suas palavras, "os jovens que nos anos 60 do século passado tiveram um papel de relevo na concretização da "utopia", como lhe chama Pepetela, ao levantar em Portugal a bandeira da autodeterminação, da independência e da liberdade dos povos sob jugo colonial", afirma. O formato da homenagem está mais ou menos estabelecido na mente de Vítor Ramalho e deverá passar por reedições da revista "Mensagem" e "das colectâneas de poesia que foram publicadas pela casa". Ao mesmo tempo, será organizado um "colóquio que contará com a presença de algumas personalidades vivas que marcaram a casa e também os países africanos lusófonos, como Pepetela, Chissano, Pedro Pires, Manuel Lima, entre outros", clarifica. A lógica será "recriar a memória", projetando um futuro com "iniciativas que não se esgotam na homenagem". A ideia desta homenagem surge da própria experiência pessoal de Vítor Ramalho: "Tive oportunidade de privar pessoalmente ou ser amigo de muitos dos jovens que nos anos sessenta do século XX vieram das ex-colónias estudar para Portugal, incluindo aqueles que acabaram por dirigir os partidos e os países que se tornaram independentes após a ocorrência do 25 de Abril", diz-nos, firmando que acredita que a necessidade deste reavivar de memórias também se sente do outro lado. Um regresso ao passado que "é também importante para o futuro", pois para o secretário-geral da UCCLA este "património" deve manter-se "vivo". Esta ideia já foi apresentada às autoridades angolanas, numa recente visita de trabalho da UCCLA a Luanda, que reagiram positivamente, segundo o próprio. Desta visita saiu também um maior conhecimento do "papel do Governo Provincial de Luanda, bem como dos municípios de Belas, Cazenga e administração de Luanda", foram abordados ainda "projectos pendentes e outros de entreajuda com as autarquias" e aquilo a que chamou de "missões de boa vontade de empresários, em regime de reciprocidade", elaborou. Sem especificar o âmbito destes projectos, Vítor Ramalho diz-nos que "lançaram-se sementes", e que já se dirigiu aos mais altos dirigentes de Portugal, CPLP, Instituto Camões e embaixadas de países lusófonos para unir esforços para a "materialização dos objectivos". Quisemos saber se a UCCLA está a par do impasse na realização, ainda este ano, da Capital da Cultura da CPLP, em Luanda. O secretário-geral da organização garantiu que tem conhecimento do processo e que tenciona abordá-lo "na próxima reunião" com o secretário executivo da CPLP.