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Paulo Guilherme

A Cimeira que Portugal queria, mas Moçambique não

A segunda Cimeira Portugal-Moçambique poderá passar à história como a mais curta de sempre, um verdadeiro caso de "speed-dating"... que correu mal. Tudo isto porque, apesar de manifestações da falta de interesse de Maputo, o governo de Lisboa insistiu em fazer o encontro.
Portugal levou o primeiro-ministro e alguns dos mais destacados ministros do governo para a Cimeira com Moçambique. Além do primeiro-ministro, viajaram 5 ministros, incluindo o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros e o da Economia. Ao fim de 3 anos, conta fonte diplomática ao LusoMonitor, entendeu-se que era bem tempo de reunir membros dos governos, que têm previstas cimeiras... anuais.
Portugal é um importante parceiro de cooperação moçambicano, além de um dos principais investidores a nível empresarial. E a economia moçambicana tem projeções de crescimento assinaláveis nos próximos anos, em virtude da abertura de novos projetos de extração de carvão ou gás natural.
Mas Moçambique, que está em contra-relógio para as eleições presidenciais, considerava não haver agenda suficiente para a realização da Cimeira. O grande assunto a tratar entre os dois governos - a passagem para mãos moçambicanas da participação portuguesa na Hidroelétrica de Cahora Bassa está em resolução. Isto apesar de a anterior Cimeira (2011) ter terminado, para desapontamento e irritação dos moçambicanos, sem avanços. O que parece não ter sido esquecido em Maputo...
Fonte diplomática conta que o sinal mais evidente da pressa moçambicana em "despachar" a comissão foi o tempo reservado - 1 hora apenas para os trabalhos oficiais e intervenções dos líderes das duas delegações.
Mais ainda, foi distribuído pelos jornalistas um programa que referia que no final haveria de uma conferência de imprensa. Ainda a cimeira decorria, os jornalistas foram informados que afinal não haveria quaisquer declarações. Lá dentro, a delegação portuguesa terá sido informada posteriormente. Cá fora, a irritação era muita entre os jornalistas portugueses.
Nas televisões e jornais portugueses ficou, dos 3 dias em Maputo, sobretudo a imagem do primeiro-ministro a reagir a quente ao caso do briefing em "off" sobre pensões, feito em Lisboa por um secretário de Estado das finanças.
No final, a falta de empenho dos moçambicanos foi notada na delegação portuguesa, e por alguns apontada mesmo ao presidente Armando Emílio Guebuza e às suas posturas "anti-portuguesas" do passado. Foi ele quem, em 1975, enquanto ministro do Interior, assinou o célebre despacho 24/20 - os portugueses tinham 24 horas para sair do país, com um máximo de 20 quilos de bagagem.