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Debate em Lisboa sobre democracia angolana levanta divergências e fricções

O tema era a democracia em Angola. O convidado um Professor Titular da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto de Luanda. No Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, vieram ao de cima divergências profundas entre académicos e as antigas fricções luso-angolanas.

No passado dia 11 de março, uma plateia do Centro dos Estudos Africanos do ISCSP composta por académicos de várias nacionalidades lusófonas “aqueceu” debatendo a democracia e direitos dos cidadãos angolanos, tanto que se tornou um desafio delicado de gestão de diferenças radicais de opiniões, sensibilidades e ainda mais, de fricções latentes entre Angola e Portugal.

Há corrupção em Angola? Também em Portugal. Os direitos cívicos dos angolanos não são respeitados? Em Portugal “caem a pique”. Foi desta forma que o professor angolano Paulo de Carvalho defendeu o sistema democrático de Angola em Lisboa. Na conferência ISCSP, sob o tema “Sistema Democrático e direitos de cidadania em Angola”, o sociólogo fez uma análise globalmente positiva, assegurando que Angola é hoje um país democrático apesar das suas origens ditatoriais.

Em defesa da situação no seu país, o conferencista convidado compara a evolução dos direitos de cidadania entre Angola e Portugal, alegando que o seu país tem vindo a apresentar algumas conquistas, apesar de ainda haver problemas sérios. Já Portugal, disse, “cai a pique” desde a entrada da troika, apresentando recuos significativos em relação a direitos conquistados. Cada vez mais transparece a imagem de que “Portugal não está na Europa”.

Quando questionado sobre a gritante situação de corrupção com que o país se debate, o investigador angolano contrapõe com uma visão mais geral: alega ser este um problema não só dos países africanos, como se costuma pensar, apontando como exemplo de Portugal e Itália como um dos países do sul da Europa nos quais se fala muito de envolvimento de figuras políticas em escândalos de corrupção.

Numa postura muito crítica sobre o que considera de imposições democráticas vindas do Norte, o conferencista olha para os dados das instâncias Internacionais sobre o desenvolvimento humano no seu país com certa desconfiança. Relativiza a visão de que a grande parte dos angolanos vive na pobreza e sob um regime ditatorial, nos quais muitos direitos de cidadania são atropelados, nomeadamente a liberdade de imprensa.

Aliás, sobre esta última questão, acredita que há mais censura a nível da imprensa privada, onde se pode até “pagar para falar mal dos adversários”.

Para o sociólogo, nestes doze anos de paz o país deu largos passos no caminho da construção de um Estado democrático e de direto, e muitas vezes é preciso abandonar os conceitos pré-estabelecidos pelo ocidente e focar mais nas realidades culturais e sociais africanas, onde a noção de pobreza, direitos humanos e de cidadania devem ser contextualizados.