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Filipe Henriques: “A Guiné-Bissau oferece-me inspiração, Portugal profissão”

 "O Espinho Da Rosa”, a primeira longa-metragem do cinema negro escrito, realizado e produzido em Portugal, pelo cineasta de origem guineense, Filipe Henriques, será exibido no dia 4 de Abril no Cinema São Jorge, na 5ª Edição do FESTin 2014 – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.
Apoiado pela Entertainment Portugal e a produtora Duxilin, esta coprodução entre Portugal e Guiné-Bissau, estará em competição entre as dez longas-metragens oriundas de Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal. Do elenco realçam-se alguns atores de renome de origem negra como Júlio Mesquita, Ady Batista, Ângelo Torres, Daniel Martinho, Ciomara Morais, Eric Santos, Sónia Neves e Ricardo Abril.
Filipe Henriques, em entrevista à Lusomonitor, mostra os bastidores do que foi até agora o maior desafio da sua vida, num contexto em que a concorrência, a rejeição e os milagres compõem o enredo da própria vida de quem só se encontra a contar histórias.
LM – Cinema não é propiamente um curso promissor face à forte concorrência existente…
FH – É verdade, no primeiro ano do curso éramos 46 alunos e no último ano restamos só 7. Um dia, o professor e diretor do curso do último ano disse-nos que as estimativas mostram que numa turma de curso de cinema, em média apenas um consegue ter sucesso, de resto muitos enveredam pelos caminhos da televisão e outras áreas. Lembro-me de ter pensado para comigo: Esse um tem que ser eu, não vim de longe para tirar um curso em vão.
De facto, é um mundo desencorajador, mas, no fundo o próprio desafio acaba por ser o meu combustível, não que queira provar alguma coisa, mas existe sempre a vontade de superar a mim mesmo, e neste caso, ser um dos primeiros realizadores negros da minha geração em Portugal é para mim um grande desafio.
LM – Sente-se dividido entre estes dois países?
F H – Volto sempre que posso à Guiné-Bissau, porque o maior valor que tenho, o valor humano, veio de lá. Muitas das vezes perco-me em quem sou e preciso voltar às raízes para me reencontrar. Portugal oferece-me o lado profissional, técnico intelectual e a Guiné-Bissau oferece-me paixão e inspiração. É muito importante não nos esquecermos das nossas raízes. Como realizador acredito que o meu maior trunfo é combinar estas duas realidades.
LM – Esta é a sua primeira longa-metragem como realizador. De onde veio a inspiração?
F H – Vem dos contos da varanda. Inspirei-me no mundo fantástico em que cresci. De ouvir tantas histórias fantásticas que para os mais velhos da altura não eram simples mitos mas factos verídicos, que afirmavam ter testemunhado ou conhecer quem testemunhou. Uma destas histórias bem conhecidas era o “pé di cabra”, um mito da Guiné-Bissau que adaptei para o filme. Por outro lado, não bastava simplesmente ter uma história fantástica mas um enredo mais complexo. Foi assim que surgiu o tema social, a abordagem da questão da pedofilia e do incesto. Não é fácil entreter e ao mesmo tempo trazer uma mensagem social sensibilizadora, daí o filme ter resultado num drama fantástico.
LM – Porque escolhe estes temas sociais e qual a sua relação com o contexto da Guiné-Bissau ou África em geral?
F H – Esta ideia surge como parte da minha responsabilidade social. No momento em que escrevia o guião, estava-se no auge da discussão sobre a pedofilia em Portugal, e lembro-me de algumas histórias terem-me chocado bastante – para mim é inconcebível a prática de tal ato! Do ponto de vista africano, penso que muitos países ainda não estão preparados para falar abertamente sobre estes temas, e são de complexa abordagem, já que estas práticas se observam muitas vezes incorporadas numa estrutura tradicional e de certa forma é aceite como normal.
LM – Com que dificuldades deparou ao fazer este filme?
F H – A ideia deste filme levou nove anos a materializar-se. Por razões diversas, acabou por ter um tempo de maturação que lhe permitiu crescer e superar inúmeros desafios. A obra constitui um sonho muito desejado. Desde a escrita do guião até a tão desejada realização do filme contou com grandes adversidades e rejeições. Lembro-me que todas as produtoras de cinema em Portugal recusaram-me o projeto sem grande justificação. Mas, mantendo-me persistente e determinado, nunca desisti e após 9 anos nasce “O Espinho Da Rosa”. E hoje digo obrigado. Sem dúvida, esta obra jamais haveria sido materializada sem a participação e cooperação da Produtora de conteúdos televisivos Plural Entartainment do qual eu era funcionário na data da realização do filme.
LM – Como lidou com as rejeições?
F H – Sabia que não era fácil e isso funcionava como combustível, fazendo-me querer superar ainda mais os desafios.
LM – Qual foi o ponto de viragem?
F H – Foi incrível! Depois de anos a tentar resolvi pedir apoio à própria empresa onde trabalhava – nunca tinha pensado nisso! A ideia foi bem recebida e apoiaram-me em termos de coprodução, com meios logísticos e técnicos. Em dois anos acabei por persuadir e reunir atores que abraçaram o projeto e trabalharem comigo a custo zero. O desafio continuava a ser conseguir uma equipa técnica, até que surgiu o momento mágico! A oportunidade me foi dada pelo produtor Raul Soares. Depois de ter lido o guião, em nenhum segundo duvidou de mim. Houve logo uma empatia e apoio imediato! “É para fazer o filme? O que precisas – perguntou. Equipa técnica – respondi. Quinta-feira às oito horas venha cá (à Plural Entertainement), disse ele”.
Nesse dia, estava noventa por cento da equipa técnica à minha espera. Da equipa fazia parte muitos nomes sonantes do cinema e da TV. Formámos uma equipa incrível de profissionais. Dois meses depois estava tudo pronto para filmar e em 16 dias apenas rodamos o filme. É de salientar que o filme a nível orçamental necessitaria de por volta de 450 mil euros para a sua conceção, mas, no entanto, pela união de um mesmo sonho e cooperação de dons diversos, este filme concretizou-se a custo zero.
Para além dos atores terem trabalhado sem remuneração no projeto, o filme ainda reuniu grandes técnicos portugueses, ingleses, brasileiros e angolanos na área de cinema e televisão que prestaram os seus serviços igualmente a custo zero para dar vida a esta obra.
LM – O que os cativou?
F H – Primeiro, o contexto do enredo, que era bastante apelativo. Depois de lerem o guião a empatia foi imediata. Depois, a minha paixão e determinação que era contagiante, creio eu. O filme é fruto de um trabalho conjunto que integra o esforço colectivo. É extremamente gratificante testemunhar o que se consegue alcançar pela união de sonhos, mentes e fé. A gratidão que sinto por todos aqueles que abraçaram este projeto não pode ser expressa em palavras humanas pois nenhum vocabulário no mundo poderia expressar com exatidão os meus sentimentos. OBRIGADO!
LM – Com quem falas e o que tentas transmitir com os teus trabalhos?
F H – É uma obrigação moral de qualquer cidadão contribuir socialmente. Este projecto nasceu com a ideia de deixar um legado à comunidade negra vindoura, no sentido de dissipar a ideia da incapacidade e inferioridade intelectual que vigora. Este filme é a prova de que é possível e de que não existem barreiras que com muito trabalho e fé não se transponham.
LM – Concorreste ou convidaram-te a participar nos festivais de cinema?
F H – No início concorria a todos os festivais, hoje ainda continuo a concorrer mas já tive convites para participar em diversos festivais, e isso é bom sinal. O projeto, sem dúvida está a produzir os seus frutos. Venceu a categoria de melhor filme estrangeiro no festival internacional de Angola e foi selecionado para o maior festival de cinema negro nos Estados Unidos, Los Angeles. Foi cabeça de cartaz no maior festival de cinema em Portugal, Fantasporto 2014, e está agora selecionado para o FESTin 2014. Finalizado em Setembro de 2013, até então o filme já conta com 7 seleções para festivais internacionais de cinema: três festivais nos EUA, dois em Portugal, o festival de Angola onde foi premiado o melhor filme internacional e mais recentemente o festival a ter lugar na Alemanha, em Berlin.
LM - Fala-nos um pouco do filme “O Espinho Da Rosa”.
“O Espinho da Rosa é um filme cuja trama se desenrola nos nossos dias, passando, porém, por uma dimensão fantasmagórica, que se vai interligando até ao ponto de não haver mais retorno.
O filme transporta-nos para uma realidade profunda, pesada e urbana, através de dois casos específicos de pedofilia que criam um desequilíbrio no normal e provocam uma série de emoções no espectador. A história combina temas tão sérios e reais como os flagelos da pedofilia e incesto, os sentimentos comuns a todos nós: amor, ódio e vingança, num contexto envolto por uma força sobrenatural e energias desconhecidas.”
LM – Com que espectativa aguarda o lançamento do filme nas salas de cinema?
F H – Ser o filme português mais visto de sempre(Risos).