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Paulo Guilherme

Furriel português regressa à Guiné-Bissau 40 anos depois e encontra “miséria profunda”

“Não tenho traumas de guerra. Não quis falar do passado, o passado passou. Só pretendi reviver um país conhecido no Mundo pelas piores razões”. 40 anos depois, Manuel Vitorino, furriel miliciano exército português numa guerra colonial que achava perdida, voltou à Guiné-Bissau para ver que também a batalha pelo desenvolvimento está a ser perdida.
Vitorino é um homem do jornalismo há mais de 30 anos, com passagem pelo Primeiro de Janeiro e Jornal de Notícias, e o resultado da viagem de regresso é um livro: “Guiné-Bissau: Crónicas de um País Adiado”. Será apresentado no próximo dia 10 de abril no Porto.
Depois de ter pisado solo guineense pela primeira vez como jovem soldado, quis “voltar a sentir um país que há 40 anos é independente”, mas que na realidade “continua a ser dependente de tudo e de todos”. Partiu com a ONG Mundo a Sorrir, envolvida há oito anos na saúde oral das populações.
“Infelizmente, a Guiné-Bissau volatizou-se e hoje é uma placa giratória do tráfico de droga internacional. Ninguém me contou. Eu vi o luxo e a opulência nas ruas de Bissau em contraste com a mais profunda miséria. Agora sei mais coisas da Guiné quando escrevo sobre a pátria de Cabral”, disse ao LusoMonitor.
As primeiras impressões foram registadas no seu blogue (http://mautempocanal.blogspot.com). No regresso, continuou a escrever reportagens, crónicas, textos avulsos. O livro conta ainda com fotos de Hugo Delgado e apoio do professor Adriano Bordalo e Sá, do ICBAS-UP.
“Só quis contar histórias de um povo a quem há 40 anos foi prometida a paz, educação, saúde e bem-estar e hoje sobrevive na mais completa miséria. Percorrer Bissau ou Bafatá, por exemplo, é uma dor de alma. Aquele país destruiu toda a herança colonial. Sei uma coisa: o livro faz um retrato de um país, seus dramas e luta pela vida. E deixa uma nesga de esperança”, afirma.
A percepção é mesmo de retrocesso em relação às condições de vida no tempo colonial. “Até as infraestruturas fundamentais como o abastecimento de água foram destruídas. E que dizer do Hospital Simão Mendes onde falta literalmente tudo e onde se vai para morrer. O Hospital é o espelho do país”, adianta.
Hoje, o jornalista diz-se ligado à Guiné-Bissau por “um sentimento de ajuda e partilha nas dificuldades” e pretende continuar a ajudar, através da ONG Mundo a Sorrir e da Casa Emanuel “que fazem milagres num país devastado pela corrupção e lutas de Poder”. “O povo humilde da Guiné-Bissau faz parte das minhas vivências. É um povo que dá uma grande lição de dignidade ao Mundo”.

Uma frente de “mil cuidados”, mas sem tiros em 1973-74

Para Manuel Vitorino, a guerra colonial é um assunto resolvido, não lhe deixou traumas. Esteve, entre 1973 e 1974, em Cancolim, na zona Leste do país, próximo da fronteira com o Senegal. Integrou o BC 4518, num “aquartelamento longe de tudo”. “Para a coluna viajar até à cidade mais próxima, Bafatá, seria preciso mil cuidados por causa das minas nas picadas, o certo é que fiquei sempre com uma enorme carga afectiva em relação ao povo humilda das tabancas, a luta diária que travavam para sobreviver”.
“Foi uma experiência rica e forte. Tive medo da guerra, entrei em várias operações pelo mato, mas tinha consciência política e sabia muito bem que aquela guerra só podia ser ganha pelo PAIGC”, diz Vitorino. Então, “mal sabia dar um tiro e só quis mesmo safar a pele”. Chegou a ter em Amílcar Cabral um “ídolo de juventude”.
“Formado à pressa”, com 3 meses de instrução no RI 5 das Caldas das Rainha e outros 3 no CISMI de Tavira, o BC 4518 nunca teve combates e “não sofreu uma baixa”. Apenas chegavam notícias de mortes noutras frentes. “O nosso dia a dia consistia em ajudar as populações naquilo que podíamos e juntamente com os guias africanos participar em diferentes missões pelo mato. Os fulas sempre foram homens sábios”.