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Paulo Guilherme

TV de Portugal, Brasil e Angola vai chegar à Guiné Equatorial - Diretor Instituto Língua Portuguesa

Gilvan Muller Oliveira, presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, realça o trabalho "extraordinário" das autoridades de Timor-Leste, que assumem a presidência da CPLP em julho, na difusão do português, nunca tão falado como hoje. A implantação da língua, alertou em entrevista ao LusoMonitor, é um trabalho de médio e longo prazo. Na Guiné Equatorial, vista cada vez mais como próximo membro da comunidade lusófona, será a "nova geração" a ter a oportunidade de aprender o português, e para isso deverá contar com programas de TV de Portugal, Brasil e Angola.

 

LM - Fala-se frequentemente da baixa difusão do português em Timor e na Guiné-Bissau. A tendência é de maior ou menor divulgação da língua?

GMO - Em todos estes contextos é preciso analisar historicamente o facto de que o português anteriormente tinha uma presença ainda mais estreita nestes países. São países que, no caso de Timor, não só teve a língua portuguesa proibida durante um tempo, mas também mesmo no tempo colonial a presença de escolaridade para a população era insignificante. Sem dúvida alguma, hoje fala-se mais português tanto na Guiné-Bissau como em Timor, mais do que jamais foi falado. Isto é, as pessoas muitas vezes acham que uma evolução linguística é coisa para um ano, para seis meses, quando sabemos que os processos de afirmação de uma língua, desenvolvimento do uso de uma língua, desenvolvimento de instrumentais para que uma língua possa estar num determinado local, é um fenómeno de médio e longo prazo que custa investimentos que muitas vezes os nossos países não fazem. Evidentemente que um país que tem os seus 12 anos de existência independente e conseguiu já escolarizar toda uma primeira geração em português, que é o que Timor conseguiu, fazer uma geração inteira chegar às portas da universidade em português, sem dúvida alguma é um resultado extraordinário, positivo. Diria que a preocupação ou até a desmotivação que muitas vezes aparecem nesse campo se referem a pouca experiência que pessoas têm de como estes processos acontecem. Processos como esse demoraram séculos no Brasil, mesmo com muita repressão de outras línguas, o Brasil entrou no século XX com imensas regiões onde as pessoas não falavam português, porque os processos de difusão de uma língua são de médio e longo prazo e demandam investimentos, circulação de pessoas, perceção das oportunidades que uma língua abre para as pessoas.

LM: Timor-Leste vai assumir a presidência da CPLP por dois anos. Poderá ser Timor a dar um novo ímpeto à difusão da língua portuguesa na Ásia?

GMO - Acredito que sim, acredito que é uma notícia alvissareira, a de que Timor assume a presidência. A Ásia tem um potencial muito grande de interesse pelo português. Veja-se o Fórum Macau, outras iniciativas nesse campo. Então a presidência da CPLP com Timor é forte impulso para que o português cresça cada vez mais nesse continente.

LM - Uma das principais dúvidas em torno da adesão da GE à CPLP é a insuficiente difusão da língua portuguesa. Acha que o uso da língua actual no país permite que entre na comunidade dos "lusófonos"?

GMO - Há vários factores ligados a essa pergunta, mas eu diria que a Guiné Equatorial fez um protocolo de cooperação com o IILP e iniciou ações de implementação da lei de oficialização da língua. Sabemos que estas ações só vão conduzir a uma população falante de português na próxima geração. Não são as pessoas atuais do governo da Guiné Equatorial, pessoas da ordem dos 50 ou 60 anos, que falarão português, mas é a nova geração que vai ter oportunidade de aprender e ter input linguístico para aprender o português, a partir dos meios de comunicação, da escolarização, processos que não foram ainda desencadeados. Acredito que há aí um problema de perceção de como as coisas acontecem. A oficialização, a possível entrada da Guiné Equatorial na CPLP, é um investimento para o futuro. Não se deve imaginar que imediatamente o português terá lá uma difusão como tem noutros países, nem que a Guiné deixará de falar outras línguas porque fala português. O português é uma das 3 línguas oficiais, além disso há uma série de línguas locais faladas e essa é uma tendência importante no mundo. No mundo há hoje, num processo iniciado nos últimos anos, de cada vez mais línguas oficiais. E as línguas oficiais não são necessariamente línguas maternas das pessoas. Muitas vezes, noto na discussão na imprensa que se esperava algo do tipo de na Guiné haver uma conformação tal como existe em Portugal, isto é, que as pessoas falem sempre português. Mas as pessoas não falam nem sempre castelhano, elas mudam de língua porque o país dispõe de uma rica base linguística, o que permite a sua articulação com diversos tipos de ambientes. Inclusive, é o único país do mundo que tem as 3 grandes línguas românicas como línguas oficiais, o que lhes permite estabelecer relações com os 33 países de língua francesa, 21 países de língua castelhana e os 8 países de língua portuguesa, para além de falar o fang, que é uma língua corrente de toda a região do Gabão, Camarões, etc. Evidentemente, o produto da oficialização do português na Guiné é algo específico, não algo que deve ser interpretado como sendo da mesma natureza com o que acontece com a língua em Portugal, no Brasil ou Angola.

LM - O IILP tem estado ou está disponível para participar na difusão do português na Guiné Equatorial? De que forma pode ser útil?

GMO - Firmamos um protocolo de cooperação técnica com a Guiné Equatorial, que explicita 8 frentes de trabalho, realizamos já uma missão ao país, que foi o envio de uma equipa de especialistas à ilha de Annobon, onde se fala um crioulo de base portuguesa, o fadambó, no sentido de se fazer um levantamento sócio-linguístico. É uma língua em expansão no país. Hoje, o fadambó não é falado só em Annobon, é falado no continente, em Bata, em Malabo, o que mostra que a Guiné Equatorial, historicamente, é um país “crioulófono” do Atlântico, exatamente como Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, portanto tem uma raiz de presença portuguesa do tempo em que era colónia de Portugal até ao tratado de El Pardo de 1777-78. Estão previstas outras ações, como por exemplo a realização da 1ª conferência de política linguística na Guiné Equatorial onde diversos ministérios e especialistas tratarão de um plano para a implementação do português no país. Elaborar um plano, ver como cada ministério vai se envolver. É um termo do acordo de cooperação. Um terceiro ponto que focalizaria é a conformação de um banco de programação televisiva, oriunda dos países de língua portuguesa – Angola, Moçambique, Brasil e Portugal – que seriam oferecidos à Guiné para que o país pudesse transmitir uma ou duas vezes por semana na televisão pública, em português, programas variados, falados e legendados em português. Para criar familiaridade da língua na população, e legendados porque isso serve de apoio aos falantes de castelhano quando não entendem alguma coisa oralmente no momento inicial da familiarização com o português, possam basear-se também na forma escrita, já que a escrita do português é menos distante da escrita do castelhano do que as duas variedades orais da língua. Isso seria um grande benefício porque acostumaria a população com a língua, transmitiria conteúdos das televisões de língua portuguesa para a população da Guiné e permitiria que eles se sentissem mais partícipes da língua e em última análise da comunidade.