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Saberá a CPLP continuar o trabalho de Kofi Annan e Sérgio Vieira de Mello?

Saberá a CPLP continuar o trabalho de Kofi Annan e Sérgio Vieira de Mello?

 Por João Crisóstomo*

Muitos não saberão, mas os portugueses luso-americanos não esquecem que em Kofi Annan - tristemente falecido no passado dia 18 de Agosto - encontraram a pessoa certa na hora certa a quem se dirigir para pedir ajuda, nos anos difíceis que levaram a independência ao povo de Timor-Leste.

Em 1996,  apresentava-se como realidade que a Indonésia controlava ja grande parte do território de Timor-Leste, com o consentimento e mesmo ajuda dos Estados Unidos e da maioria dos países ocidentais. Havia porém um fórum em que a Indonésia não conseguia avançar nos seus esforços de controlar Timor-Leste: as Nações Unidas, que em Dezembro de 1975 condenaram quase por unanimidade a invasão, e continuavam, liderados por um Portugal inabalável, a resistir e a votar ano após ano que a Indonésia retirasse as suas tropas invasoras.

E se os Estados Unidos (que tinham para isso dado a luz verde à invasão indonésia) eram a chave para qualquer solucão, nas Nações Unidas continuavam oficialmente a não aceitar esta ocupação. Esta era pois uma janela de oportunidade que se impunha aproveitar, a par de outras iniciativas junto da comunicação social, do Congresso e da Administração Norte-Americana.

Consciente disto, a nossa associação, o Movimento Luso-Americano para a Auto-Determinação de Timor-Leste (LAMETA), logo desde o início do seu envolvimento em 1996, focou os os seus esforços nas Nações Unidas. Estas tornaram-se mais acessíveis com a nomeação de Kofi Annan como Secretário Geral, que tive o privilégio de conhecer e contactar pessoalmente em várias ocasiões. 

Recordo duas destas ocasiões especialmente frutuosas: um dia, no princípio dum jantar que estava coordenando, reparei que uma das paredes da sala de jantar da residência de Kofi Annan estava ornamentada com um grande “Tais” de Timor-Leste. Isto deu-me azo a falar com a sua esposa sobre o mesmo e logo sobre o país de origem deste tecido maravilhoso. Ao tomar conhecimento do meu interesse e envolvimento por Timor-Leste, Nane Annan recomendou-me que falasse com o seu marido, Kofi Annan, que por sua vez me instruiu para lhe enviar uma carta sobre as preocupações e problemas que eu lhe expunha.

Numa outra ocasião encontrei-o num dos grandes corredores junto à entrada do edifício da ONU, rodedado de várias pessoas com quem trocava impressões. Apesar da minha vontade de lhe falar para insistir com ele que fizesse “ainda mais” por Timor-Leste, não quis ser menos educado, interrompendo a sua conversa e esperei; mas cedo verifiquei que ia perder a oportunidade, pois ele se apressava a ir embora e apenas tive tempo de lhe pedir se lhe podia enviar uma carta. Respondeu com um rápido assentimento e que a enviasse para o seu escritório. Mas, bem consciente do processo a que estas cartas eram sujeitas, insisti, pedindo-lhe se a podia enviar para a sua residência. Fixou a vista em mim e deve-me ter reconhecido, pois logo acedeu a que a enviasse directamente como eu pedia.

E, passados dias, recebia uma resposta, datada de 16 de Julho de 1999 em que falava dos esforços desenvolvidos, acompanhada de,“the most recent United Nations fact sheet on the crisis in East Timor.

Outra carta a Kofi Annan, esta escrita à mão também em 1999, a que a CNN teve acesso, deu azo a que a CNN enviasse uma equipe a minha casa para falar comigo sobre o meu envolvimento e interesse por Timor Leste. Na carta eu dizia em tom quase desesperado que Annan e a ONU eram a única e última esperança para Timor, e pedia que mantivessem a coragem e determinação demonstrada até aí.

No dia seguinte, estas palavras de súplica eram lidas e repetidas durante o dia na CNN; e algum tempo depois o seu programa “Diplomatic Channel” fazia o mesmo.

Não tenho qualificações para poder falar com autoridade sobre o muito mais que ele fez por Timor-Leste; mas o facto de ele, junto com as Nações Unidas ter recebido o Prémio Nobel da Paz, fazem qualquer outra consideraçao comprovante desnecessária. Recordo apenas o seu sentido sábio e pragmático em ter nomeado para Timor Sérgio Vieira de Mello - que eu viria a conhecer pessoalmente nas Nações Unidas,  no dia da entrada oficial de Timor Leste neste grupo de Nações.

Foi, como a História demonstrou, escolha bem acertada, a que nao foi alheia a opinião de Ramos-Horta,  a quem Kofi Annan decidiu pedir conselho para escolher o seu representante em Timor leste.

Sérgio Vieira de Mello é também figura que me vem à memória. Foi sob a sua sábia e pragmática direccão que se fez a reconstrução de Timor-Leste, no período depois do referendo até ao dia da reaquisição da sua Independência em 20 de Maio de 2002. A sua influencia foi sem dúvida importante para que que Timor-Leste e os seus dirigentes de então tivessem decidido optar pela língua portuguesa, junto com o Tetum, como línguas oficiais de Timor-Leste.

Recentemenete, em solo timorense, verifiquei com muita preocupação que a língua portuguesa ainda se encontra em muito perigo em Timor-Leste. E por isso pedi que a CPLP fizesse um esforço especial nos próximos dez anos para que no 25º aniversário de Timor Leste a educação seja acessível a toda a juventude e o uso da língua portuguesa mais generalizada.

A situação da língua portuguesa em Timor-Leste é periclitante, e justifica-se um “programa extraordinário”, pois verifiquei com espanto haver mesmo em Timor-Leste um esforço por parte de outras nações (Indonésia e Austrália, talvez outras) para uma eventual substituição/ eliminação da nossa língua.

Com a feliz escolha de Francisco Ribeiro Teles para o cargo de Secretário Geral da CPLP, chegou a altura de repetir com a mesma angústia com que me dirigi a Kofi Annan, um pedido à CPLP na pessoa do seu próximo líder: A língua portuguesa e o futuro de Timor estão em perigo. O futuro de Timor Leste depende da sua juventude, e esta não está a ser preparada como se impõe. Sem educação para a sua juventude, Timor-Leste não tem futuro.

A CPLP é, na minha opinião a melhor esperança, a melhor via para a educação, para a língua portuguesa e para o próprio futuro de Timor-Leste. Podemos contar consigo sr. Embaixador Francisco Ribeiro Teles?

 

* Presidente da LAMETA - Movimento Luso-Americano para a Auto-Determinação de Timor-Leste (desde 1996)