África Monitor

Acesso Livre

Xavier de Figueiredo

O lado cénico das relações Portugal/Angola

O lado cénico das relações Portugal/Angola

 

O que se passa nas relações Portugal/Angola, sobretudo o que se passa de aparentemente mal, tem geralmente duas dimensões: a realidade e os aproveitamentos que a media portuguesa lhe dá.

A realidade è Marcelo Rebelo de Sousa ter sido ovacionado (juro que foi!) quando o speacker da cerimónia oficial de investidura de João Lourenço anunciou o seu nome entre os dignitários estrangeiros presentes. Aproveitamento dessa mesma realidade é a transformação mediática desses mesmos aplausos em apupos.

A minha única dúvida é se o enviesamento se deveu a coisas como um mero erro de avaliação, propiciado pelo desconhecimento de particularidades do meio (todos os meios têm as suas….), como as manifestações de multidões em circunstâncias como aquela; ou a uma simples desatenção em relação à simpatia que “Celito” (arranjaram-lhe logo uma alcunha carinhosa) captara entre a população de Luanda.

O que um inédito mergulho numa praia da Ilha ou uma improvisada participação num jogo da basquete, podem fazer pela popularidade de um Presidente em Luanda!

Era bom que a transformação dos aplausos a Marcelo em vaias se tivesse devido a uma destas causas – ou às duas ao mesmo tempo. Até como forma de pôr de lado outras explicações – todas reprováveis em termos de objectividade e honestidade profissional dos jornalistas.

As autoridades angolanas estão seguramente incomodadas com procedimentos da justiça portuguesa cujo amplo conhecimento me dispensa de lhes fazer referência esmiuçada. Por razões de Estado, mas também por outras, pessoais e de grupo, estas não confessáveis, fizeram chegar uma nota verbal de protesto (é o termo correcto) ao MNE. Mas isso ter sido pasto de extrapolações como as de que estaria iminente um corte de relações ou que por via disso a continuação dos portugueses em Angola estaria em risco, é manifestamente um exagero.

A experiência advinda de anos e anos de cíclicos sobressaltos nas relações bilaterais, ensinou a oligarquia angolana a usar a pressão sobre os sucessivos Governos de Lisboa (o calcanhar de Aquiles de todos eles, sem excepção), como forma de resolver a seu contento os problemas. Por acréscimo, descobriram que a pressão mediática é a mais eficaz de todas. A seguir a de centros de influência e de lobbies.

Os prodígios de que é capaz um editorial anti-português do Jornal de Angola – a que em Angola praticamente ninguém presta atenção! As campainhas de alarme soam logo, frenéticas, nos jornais e nas televisões portuguesas.

Não deve ter sido por acaso que a exploração do episódio da nota verbal, já acompanhada de terríficos presságios em relação ao seu provável desfecho, interessou especialmente a dois jornais portugueses praticamente dominados por capitais angolanos: Sol e i.

Só numa deficientíssima análise da presente realidade político-económica de Angola, se pode considerar o cenário de um corte de relações por decisão das autoridades angolanas. Poupando-me uma vez mais de entrar no detalhe, garanto que Angola não deve ter passado por nenhum contexto político-económico tão pouco favorável a um corte de relações com Portugal.

O cenário inverso é que está correcto. Precisa de fomentar ainda mais as relações como forma de conseguir compensar o abalo económico e a depreciação de prestígio político em que a crise do petróleo a colocou. Os cento e tal mil portugueses que se encontram em Angola estão a preencher uma lacuna grave (falta de recursos humanos qualificados), que a reabrir-se seria capaz de comprometer esforços em curso no sentido da diversificação da economia.


* Xavier de Figueiredo é jornalista e presidente do Conselho Estratégico do Africa Monitor Intelligence