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Emmerson Mnangagwa: De Chefe dos "Espiões" e Cúmplice de Mugabe a Líder de Transição no Zimbábue

Emmerson Mnangagwa: De Chefe dos "Espiões" e Cúmplice de Mugabe a Líder de Transição no Zimbábue


por Natasha Lubaszewski *

Empossado na última sexta-feira, 25 de novembro, Emmerson Mnangagwa vai liderar o Zimbabué até às próximas eleições presidenciais, previstas para Setembro de 2018. Estiveram presentes na cerimónia mais de 60 mil pessoas, lotando o Estádio Nacional de Harare. Entre elas, Presidentes de países vizinhos, o que indica um apoio inicial ao novo governo, como Hage Geingob, da Namíbia, Filipe Nyusi, de Moçambique, Edgar Lungu, da Zâmbia e Ian Khama, do Botswana. O Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, não esteve presente, uma vez que receberia nos mesmos dias a primeira visita oficial de João Lourenço, o novo presidente angolano.

É sabido que Mnangagwa tinha planos de suceder a Robert Mugabe na Presidência do Zimbábue, mesmo antes da sua exoneração. Mugabe, há 37 anos no poder, promoveu Mnangagwa a diversas posições de destaque no partido ZANU-PF e no governo, levando muitos a acreditarem que ele seria seu sucessor natural.
A exoneração do vice-presidente, no dia 6 de novembro, sob acusação de “traição”, teve maiores consequências do que Mugabe previu. Membros da ZANU-PF e do exército, cujos objetivos eram manter no poder os históricos da luta de libertação, aliados de Mnangagwa, intercederam em seu favor, o que culminou com a renúncia de Mugabe no dia 21 de novembro.

Emmerson Dambudzo Mnangagwa nasceu em 15 de setembro de 1942 (75 anos) na região central de Zvishavane e faz parte do maior clã da comunidade Shona, Karanga. Mnangagwa é conhecido como “Ngwena”, palavra Shona para crocodilo, pela sua astúcia política. É considerado elo de ligação entre o partido Zanu-PF, o Exército e as agências de inteligência do país. Foi torturado na Rodésia após ataques organizados pelo seu gangue “de crocodilos” a um comboio perto de Fort Victoria (hoje Masvingo), onde só não foi condenado à morte por ter menos de 21 anos. Após isso, recebeu treino militar na China e no Egito e, na década de 1970, atuou diretamente na guerra de libertação do Zimbábue, ao lado de Mugabe. Como mão direita do presidente anterior, ocupou diversos cargos, entre 1980 e 2014, incluindo Ministro da Segurança Nacional do Zimbábue, Ministro das Finanças e Ministro da Defesa.

Durante este período, foi considerado cúmplice de Mugabe em diversas atrocidades. Entre elas, o conflito nos anos 1980, período no qual foi Ministro da Segurança Nacional e esteve à frente da Organização Central de Inteligência, no qual foram mortos aproximadamente 20 mil civis inocentes, principalmente da etnia Ndebele, apontada como simpatizante do partido de oposiçãoZAPU. Além disso, é acusado também de planear ataques a integrantes da oposição após as eleições de 2008, desencadeando uma campanha violenta contra partidários da oposição, deixando centenas de mortos e desalojados e culminando com a retirada do candidato do MDC, Morgan Tsvangirai, da segunda volta. Estes e outros factos levantam questões sobre se Mnangagwa defende a democracia realmente, ou apenas em discurso.

No seu discurso de abertura, afirmou que pretende acabar com os atos de corrupção e, de acordo com a Reuters, prometeu garantir os direitos dos investidores estrangeiros e aprofundar as relações com o Ocidente, além de enfatizar que as eleições previstas para Setembro de 2018 vão decorrer como previsto. As suas boas relações com a China, onde recebeu treino militar, levam a crer que serão intensificadas relações também com este país.

Com as dificuldades na economia do Zimbábue, o novo presidente estará sob constante pressão para alcançar resultados que demonstrem melhoria. Definindo a agricultura como o principal fator para a recuperação económica do país, Mnangagwa prometeu no seu discurso de tomada de posse devolver aos legítimos donos, grande parte deles brancos descendentes de britânicos, todas as terras que lhes foram expropriadas durante o governo Mugabe.

Apesar de muitos estarem reticentes quanto à sua história como aliado e cúmplice de Mugabe e sua reputação de dureza, Mnangagwa demonstra ser um sobrevivente político astuto e tem defendido os direitos dos empresários e apoiado o compromisso do país com a comunidade global.


* A autora é mestranda em Estudos Africanos no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP)