África Monitor

Acesso Livre - Segurança e Defesa

Leston Bandeira

Crise económica complica papel de Angola como "força protectora" africana

Crise económica complica papel de Angola como "força protectora" africana

As Forças Armadas de Angola (FAA) vão começar a dar formação às Forças da República Democrática do Congo (RDC). Um acordo que regula os termos desta colaboração foi assinado em Cabinda e a acção será iniciada dentro de meses na base militar de Kitona, pertença dos Estados Unidos , tal como a de Kamina.

Não é um pormenor sem significado o facto de esta cooperação Angola-Congo se efectivar em espaço tutelado pelos EUA. É que Washington aprova o papel de Angola como força de referência não apenas na sua região, como em toda a África, partindo do princípio que as FAA podem colaborar na contenção de alguns conflitos regionais africanos, garantindo, desse modo, a pacificação de uma região em permanente sobressalto.

Este entendimento do papel de Angola já esteve, por várias vezes, evidente na participação de exercícios militares, tal como o Dolphin, em que participaram forças angolanas da África do Sul, Botswana, Lesotho, Malawi, Ilhas Maurícias, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia, Zimbabwé, RDC e Madagascar. Esta participação de um tão vasto leque de forças armadas evidencia a preocupação de, no quadro da Arquitectura de Paz e Segurança Africana (APSA), se vir a criar um órgão regional de defesa e segurança.

Angola está, evidentemente, interessada neste papel de “força protectora” na região normalmente definida como África Austral, mas, nesta altura coloca-se o problema da segurança numa outra região de que Angola também faz parte, por razões de interesse económico e estratégico: o Golfo da Guiné, no espaço entre o Benim e Guiné Equatorial. Trata-se de uma vasta região petrolífera que integra países produtores como Angola, Camarões, Gabão, Guiné Equatorial, Nigéria, RDC, República do Congo e São Tómé e Princípe.

Angola não pode deixar de pertencer à Comissão do Golfo da Guiné e aí tem como concorrente para o papel de principal “protector” a Nigéria, neste momento disposta a explorar o propalado definhamento económico de Angola.

Os constrangimentos angolanos impossibilitam os investimentos necessários para, por um lado, manter a sua relação com o sistema defensivo da África Austral, de que, afinal praticamente não faz parte; por outroem integrar-se, com a sua influência atual no Conselho de Segurança da ONU, e por ter assegurado o apoio americano, noutros órgãos de segurança e defesa a serem criados no Golfo da Guiné, exigidos por uma alteração evidente na definição de uma geoestratégica, naquela zona. O petróleo e o gás desempenham um factor dominante na balança energética global - ainda .

Neste momento difícil, Angola tem pela sua frente definições difíceis de assumir: é um país da África Austral, ou da África Central? Investe mais na defesa das suas fronteiras terrestres a Sul e a Leste ou na integração de um sistema regional mais amplo, cumprindo também a sua função de país desejavelmente preocupado com as defesa e segurança regionais, continental e até mundial?

A situação económica de Angola, com a sua dependência do petróleo e sem nenhuma alternativa credível para um sistema económico capaz de permitir cumprir compromissos eleitorais e internacionais, terá, sem dúvida, influência nas respostas a estas questões. 

Os investimentos necessários para garantir que Luanda tem capacidade para liderar, junto dos seus vizinhos, as acções necessárias à construção de um esquema que em 2003 foi definido como Arquitectura de Paz e Segurança Africana (APSA), cujo objectivo era o de contribuir colectivamente para melhorar os níveis de segurança regional, não são fáceis de concretizar face à crise económica. Esta é já visível a olho nú, com falhas de pagamentos e redução galopante de meios de pagamento no exterior.

A liderança de Angola - desejada, de resto, pelos Estados Unidos - só pode concretizar-se se os americanos decidirem apoiar este seu desejo de forma efectiva. De resto, os chineses já se anteciparam – o que parece – com a assinatura de recentes acordos assinados em Pequim na área do fornecimento de equipamentos militares, a começar por fardamentos.

O que a comunidade africana e internacional espera de Angola é um papel difícil de concretizar e levará, seguramenmte, ao desenvolvimento de complexos processos de negociação diplomática e a um investimento que terá de ser repartido por uma boa parte dos interessados neste papel das FAA.

Angola estava em vantagem com a sua economia pujante em permanente crescimento. Veremos se, apesar de tudo, conseguirá estar tão presente noutras latitudes como está, a partir de agora, na RDC.