África Monitor

Acesso Livre - Segurança e Defesa

Paulo Guilherme

Angola e Nigéria disputam influência sobre São Tomé e Príncipe

Angola e Nigéria disputam influência sobre São Tomé e Príncipe


São Tomé e Príncipe já não é visto como uma potência petrolífera emergente, como há alguns anos. Mas, pela sua posição geográfica, continua a ser considerado um país estratégico na Segurança e Defesa de toda a região do Golfo da Guiné. Angola e Nigéria reconhecem-no, e estão em disputa por influência no arquipélago.

Em artigo para o Instituto Português de Relações Internacionais e de Segurança (IPRIS), o investigador Gustavo Plácido dos Santos sublinha que São Tomé e Príncipe tem condições para ser um “posto avançado para monitorização e vigilância na região”, fustigada pela pirataria marítima, que muito afeta a exploração petrolífera da vizinha Nigéria, e assim as suas receitas orçamentais.

“Há necessidade de dotar São Tomé com os recursos e capacidades para desempenhar esse papel”, afirma o investigador. São necessárias forças, meios militares e equipamentos como radares, e Angola e Nigéria já se mostraram disponíveis para apoiar. Devem ser admitidas “ondas de choque do conflito de interesses regional entre estas duas potências africanas”.

A Nigéria olha com “relutância e desconfiança” para a expansão dos interesses angolanos na região e “tensões desta natureza podem facilmente romper qualquer tentativa para criar uma iniciativa regional eficaz para lidar com a insegurança”. Um movimento de cooperação regional, adianta Plácido dos Santos, não é possível sem a participação de ambos os países.

Patrice Trovoada, primeiro-ministro são-tomense, esteve recentemente em Abuja para participar numa conferência sobre a segurança no Golfo da Guiné, região que concentra algumas das maiores reservas petrolíferas do mundo. Encontrou-se com o novo presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, com quem discutiu a pirataria e insegurança na região. A primeira viagem de Trovoada ao estrangeiro depois de eleito foi a Angola.

As perspetivas de produção petrolífera na Zona de Desenvolvimento Conjunto (ZDC) entre Nigéria e São Tomé e Príncipe permanecem “incertas”, segundo Plácido dos Santos, devido aos baixos preços do petróleo, que desincentivam o investimento na exploração petrolífera em pequenos blocos que não sejam comercialmente viáveis, como no caso da ZDC.

“O desinvestimento petrolífero levantou dúvidas sobre a viabilidade das reservas são-tomenses, um duro golpe nas suas perspetivas económicas”, afirma o analista. O governo são-tomense tem mesmo vindo a desvalorizar a importância do petróleo na economia do arquipélago. Se os preços do petróleo continuarem baixos, a prioridade na ZDC pode virar-se para outros sectores, como as pescas ou turismo.

Além de uma presença forte em São Tomé e Príncipe, Angola estende a sua influência a outros três países lusófonos que estão no raio de ação nigeriano: Cabo Verde, Guiné Equatorial e a Guiné-Bissau, onde o antagonismo entre as duas potências regionais atingiu o seu ponto mais alto na crise de 2012.

A presença angolana na economia são-tomense estende-se aos sectores estratégicos: combustíveis, (ECO) aviação (STP Airways), concessão de portos e aeroportos, petróleo (bloco 2 da ZDC) e telecomunicações. Em 2014, Luanda abriu uma linha de crédito de 180 milhões de dólares para o arquipélago.

Angola está ainda presente na formação das forças de segurança e em agosto ofereceu apoio para a definição da nova estratégia são-tomense de combate ao crime organizado. “A questão é se a Nigéria vai permitir a continuação da expansão dos interesses angolanos na ZDC”, afirma Plácido dos Santos.