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Mercenários veteranos de Angola na linha da frente contra Boko Haram na Nigéria

Mercenários veteranos de Angola na linha da frente contra Boko Haram na Nigéria


Têm já entre 50 e 65 anos e ganharam a vida combatendo como mercenários nalguns dos principais conflitos das últimas décadas em África. Deixaram cair o nome “Executive Outcomes”, que usavam quando José Eduardo dos Santos os recrutou para apoiar os combates contra a Unita, mas estão bem activos e na linha da frente do principal conflito de hoje: na Nigéria, contra o Boko Haram.

A participação deste grupo de combatentes, a maioria originário da África do Sul, foi essencial para que o governo nigeriano conseguisse desde o início do ano inverter o rumo do conflito contra o Boko Haram. “É o mesmo grupo de pessoas que combateu na Serra Leoa e em Angola”, afirmou ao Financial Times uma fonte ligada ao contrato com os ex-Executive Outcomes.

Cerca de 300 homens compõem o grupo à beira da idade da reforma. “Não são tão rápidos como eram, mas estão bem treinados e são eficientes no manejamento de armas. Quando se tem esse tipo de conhecimento, não se perde”, adiantou a mesma fonte. Os mais bem pagos do grupo ganham perto de 10 mil dólares por mês.

Com helicópteros de ataques ao solo e raides noturnos, o Boko Haram terá sido apanhado desprevenido. Nas últimas semanas, o governo nigeriano anunciou ter recapturado 17 das 20 regiões administrativas locais que havia perdido para os guerrilheiros que juraram obediência ao Estado Islâmico (ISIS).

Os Executive Outcomes formaram-se após o fim do regime de domínio branco na África do Sul, com elementos das forças especiais do regime do Apartheid. Estes elementos das Forças de Defesa Sul-Africanas eram dos mais bem treinados do mundo em contrainsurreição e combate a guerrilhas.

No início do conflito angolano, o regime da África do Sul apoiou a UNITA contra o MPLA, então leal a Moscovo e ao Bloco de Leste comunista. Na década de 1990, o regime de José Eduardo dos Santos recorreu aos Outcomes sul-africanos – nalguns casos aos mesmos que tinham combatido do outro lado – para virar o rumo do conflito, que terminou em 2002 com a eliminação de Jonas Savimbi.

Os Outcomes acabaram por ser extintos em 1999, sob pressão do governo sul-africano, que aplicou leis contra os mercenários. Alguns dos seus membros, contudo, têm aparecido com regularidade em vários conflitos no continente.

Cobus Classens, destacado operacional da Outcomes lidera uma empresa de segurança na Nigéria, que tem como clientes empresas multinacionais e outras entidades estrangeiras. Mas, ao FInancial Times, negou qualquer envolvimento na chegada dos Outcomes ao país.


No combate contra o Boko Haram, o governo nigeriano tem estado a recorrer a apoio estrangeiro de várias formas: aluguer de helicópteros de ataque ao solo franceses Puma, além de equipamento russo ou ucraniano.

O Boko Haram é reconhecido como uma das principais ameaças atuais à paz em África. A intervenção de uma força internacional mandatada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas tem sido admitida, e Angola está entre os apoiantes da iniciativa.