África Monitor

Acesso Livre - Segurança e Defesa

Mercenários veteranos de Angola derrotaram Boko Haram, mas acabaram “despachados” pelo governo nigeriano

Mercenários veteranos de Angola derrotaram Boko Haram, mas acabaram “despachados” pelo governo nigeriano


Em três meses conseguiram inverter o curso da campanha das Forças Armadas nigerianas contra o Boko Haram, contribuindo decisivamente para a derrota deste grupo terrorista. Contudo, estes ex-militares sul-africanos, muitos dos quais combateram como mercenários em Angola, viram-se alvo de governos e da imprensa internacional, e a Nigéria acabou por não lhes renovar o contrato.

A empresa que agrupa os mercenários de Angola, ex-Executive Outcomes, chama-se hoje STTEP, e é presidida por Eeben Barlow, veterano de vários conflitos africanos. Este fez ao site de assuntos de segurança e defesa SOFREP um relato raro do final da missão na Nigéria contra os chamados “talibã africanos”, que defendem a lei islâmica, métodos de violência extrema, incluindo contra civis, e rejeitam a cultura ocidental.

As eleições nigerianas, em março, terão sido um factor influente para a não renovação da subcontratação. Mas, para Eeben Barlow, também o foram as pressões externas sobre o governo nigeriano, em relação à presença de militares brancos, apelidados de “racistas” ou “pro-Apartheid”.

“O governo sul-africano tem engolido uma narrativa tão falsa dos media sul-africanos que é possível que tenha pedido ao governo nigeriano para não prolongar o contrato. Os media tentaram fortemente tornar isto num assunto racial, com o objetivo de criar a maior suspeita possível”, disse Barlow.

“Se fossemos os chamados racistas de algumas prostitutas dos media dizem que somos, acha que algum governo africano falaria sequer connosco?”, adianta. “Somos sobretudo brancos, negros e mulatos africanos que vivem neste continente e são aceites enquanto tal pelos governos africnaos – mas, como habitualmente, nós os `caras-pálidas´ somos minoria na empresa”.

A STTEP chegou ao terreno no início de janeiro, com objetivo de formar uma força de ataque para salvar as 250 raparigas raptadas de uma escola de Chibok pelo Boko Haram, que estava a estender o seu domínio no norte. Recrutaram elementos das unidades de elite das Forças Armadas nigerianas. Formaram uma força móvel, com apoio aéreo próprio, além de informações, comunicações e logística.

Na entrevista, Barlow refere mesmo pressões de outros governos estrangeiros, sobretudo dos Estados Unidos, contra a sua empresa de segurança privada.

“Os Estados Unidos usaram recentemente o Africom para pressionar um potencial cliente nosso para que não recorresse aos nossos serviços e foram mesmo ao ponto de fazer ameaças a esse potencial cliente”, afirma o presidente da STTEP.

Antes, os Estados Unidos tinham disponibilizado ao governo nigeriano um contingente de forças especiais para apoiar o resgate das raparigas de Chibok, oferta que foi rejeitada pelo ex-presidente Goodluck Jonathan.

O primeiro desdobramento da força formada pela STEPP aconteceu no final de fevereiro, ao que se seguiu uma série de derrotas dos terroristas que Barlow qualifica como “notáveis”. No final de março foi capturado o quartel-general do Boko Haram e todos os funcionários da STTEP abandonaram a Nigéria, em saída controlada. O pessoal era sobretudo negro, oriundo da África do Sul e Namíbia.

“A força de ataque nunca teve como objetivo aguentar posições. Em vez disso, operou no princípio da incessante ação ofensiva”, afirma Barlow. A doutrina é explorar imediatamente qualquer sucesso no campo de batalha, não deixando o inimigo recuperar. “Sei que o inimigo perdeu muito equipamento e sofreu pesadas baixas”.

O futuro da força treinada pela STTEP é incerto e o Boko Haram ainda está activo. Barlow diz que 3 meses não chegaram para aniquilar as forças inimigas, que ainda podem reagrupar-se e reequipar-se. Se o governo nigeriano não conseguir levar a tarefa até ao fim, não será capaz de negociar numa posição de força, avisa.