Africa Monitor

Análise

Leston Bandeira

5 razões para não levar demasiado a sério o “adeus” de dos Santos

 5 razões para não levar demasiado a sério o “adeus” de dos Santos


José Eduardo dos Santos diz que abandonará a política activa em 2018. O anúncio – ou será promessa? – deve ser lido tendo em conta o impacto que crise económica teve na reputação do “chefe”, mas também as dinâmicas das “famílias” – a presidencial “oficial”, a presidencial “paralela”, e as dos homens de mão do regime. A promessa – ou será miragem - não é para ser levada à letra – nem demasiado a sério – e eis 5 razões para tal:

1. É a preparação para a sua própria recandidatura ao cargo, uma vez que aposta numa vitória significativa do MPLA nas eleições e num novo mandato como presidente. Nessa condição, terá a faculdade de indicar um sucessor, mas não imediatamente.

2. Santos terá que se acertar com os generais da velha guarda, todos enriquecidos à luz da doutrina da criação de uma burguesia com grande capacidade de acumulação de capital. A maior parte deles sem grandes competências, correrão sérios riscos de “despir na rua o alheio” - sem Santos na Presidência, não terão cobertura para as suas fortunas, traduzidas em partipações em empresas, em posse de terras e em dinheiro depositado no exetrior do país. A resignação de dos Santos será a derrota de uma maioria destes acumuladores primitivos de capital. O mesmo acontecerá com uma parte das suas famílias: a de origem e a, entretanto, ampliada pela sucessão de filhos que foram aparecendo.

3. Há uma família de que Santos dificilmente se verá livre: a que constituiu com Maria Luisa Abrantes (Milucha) de quem tem dois filhos: José Paulino dos Santos e Welvitschea dos Santos (Tchizé). Milucha presidiu até recentemente à Agência Nacional para o Investimento Privado (agora APIEX). Saiu para se reformar, dizendo que “ a ANIP continua comigo ou sem mim. Saio para me reformar. Sou uma filha da ANIP.” 
Para esta família “paralela” de Santos, a sucessão tem que ser dinástica e os timings políticos não ajudam a que Paulino dos Santos possa suceder ao pai, porque ainda não tem a aceitação, quer do MPLA, quer das Forças Armadas. Também por esta razão, o anúncio de uma saída em 2018, parece inverosímil.

4. Não sendo uma sucessão dinástica, ela terá que ser aceite pelo MPLA e pelos generais veteranos, algém que esteja comprometido com o sistema cléptomano que foi seguido pelos homens do MPLA que, pelo facto de terem feito as várias guerras ocorridas no país, se acham no direito de ter acesso a todas as suas riquezas. É um direito que lhes assiste, mesmo sem estar escrito. Lutaram; alguns deles fugidos, mas têm curriculum. João Lourenço, actual ministro da defesa e apresentado, de novo, como hipótese para sucessor, também não terá a confiança dos generais mais velhos, que, ao contrário, temerão que ele se apoie nos novos generais, entretanto formados em academias na Europa ou na América e, seguramente, com outra visão das respectivas posições na sociedade, sem abdicarem também da sua oportunidade no processo de acumulação de capital, nem que seja com o sacrifício dos mais antigos.

5. Nesta encruzilhada, e aceitando, que o presidente está, sinceramente, a anunciar a sua retirada, não é de excluir que apareça um novo nome. Quando foi escolhido (tendo sido a terceira escolha) ninguém imaginava que Santos, o “playboy” do governo”, pudesse ser Presidente. Todavia, um nome novo terá que ter o apoio inequívoco do MPLA e força para arrostar com todas as oposições que surgirão de toda a gente perto e dependente de Eduardo dos Santos.

Por tudo isto, acredito que Santos irá manter-se por mais alguns anos na presidência, com todos os apoios dos que dependem dele. E com a esperança de poder ter condições para indicar como sucessor um dos seus filhos. Sentar na cadeira da presidência a sua filha Isabel pode ser um dos seus sonhos.