Africa Monitor

Análise

Paulo Guilherme

Angola e Guiné Equatorial mais longe do “sonho africano”

Angola e Guiné Equatorial mais longe do “sonho africano”


Um crescimento económico sustentado que criasse uma classe média de mil milhões de consumidores africanos: era esta a visão da “ascensão africana”, em voga nos último anos. A queda abrupta do preço das matérias-primas, sobretudo do petróleo, veio baralhar as contas. O caso Angolano é o mais falado, mas a Guiné Equatorial deverá ser a economia mais atingida pela conjuntura no continente.

Foram centenas as conferências ou estudos dedicados recentemente à “ascensão africana” por universidades ou centros de investigação em todo o mundo. Valorizavam o crescimento na África subsaariana (5 por cento em média na última década) e o investimento, alertando contudo para a exposição de países como Angola à volatilidade do preço do petróleo. E
 para a necessidade de diversificar as economias mais dependentes.

Agora, predomina a ideia de que o sonho africano foi “minado”, como escrevia a Reuters na semana passada, ou “adiado”. Alguns países podem ainda beneficiar da onda de interesse que o continente despertou entre os investidores, como Moçambique; 
outros vão viver tempos difíceis, como é o caso de Angola.

Entre os países em situação mais adversa, as atenções têm estado concentradas em Angola, dada a sua importância na economia regional, mas o caso da Guiné Equatorial é mais agudo. O Standard Bank espera uma contração de 8 por cento na economia este ano, a pior entre os países africanos. A causa é a dependência económica em relação ao petróleo.

No campo oposto está Moçambique, que deverá crescer este ano perto de 8 por cento, beneficiando de grande afluxo de investimento estrangeiro para o desenvolvimento da indústria de carvão e gás natural.

Em 2013, segundo dados das Nações Unidas, África do Sul, Nigéria, Gana e Moçambique receberam 23 mil milhões de dólares de investimento, mais do que todos os outros países da África Subsaariana juntos.

Mais recentemente, avolumam-se sinais de alguma travagem de investimentos nas matérias-primas em Moçambique, sobretudo no carvão. E o risco político do país aumentou acentuadamente, com o reavivar de tensões entre Renamo e Frelimo. Mas as previsões de crescimento mantêm-se inalteradas.

Também para a África do Sul as perspetivas são geralmente favoráveis. Apesar do crescimento previsto ser de apenas 2 por cento, continua a ser de longe a maior economia africana e viu o peso da sua fatura de combustíveis diminuir substancialmente.

A primeira lição da atual crise em relação à almejada "ascensão africana", é que alguns países a deram demasiado como adquirida. Não quer dizer que não venha a acontecer, mas não será seguramente igual para todos.


Ainda é possível que África venha a ter mais mil milhões de consumidores, com acesso a telemóveis, contas bancárias e produtos de grande consumo. Mas talvez eles venham a estar distribuídos de forma mais desigual entre os países que se prepararam para os tempos difíceis e os que foram apanhados desprevenidos.