Africa Monitor

Análise

Jorge Heitor

Bissau reaproxima-se de Cabo Verde

Bissau reaproxima-se de Cabo Verde


O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, visita oficialmente Cabo Verde de 27 a 29 deste mês, retomando uma relação cordial com o país nascido na tarde de 5 de Julho de 1975; reatando laços que se tinham esfriado por causa do golpe de 2012 e de atitudes de militares como o general António Indjai.

Ao deslocar-se a Cabo Verde, nesta altura de renovação, para ambas as partes, uma vez que também no arquipélago crioulo o PAICV elege uma nova direcção, Domingos Simões Pereira estende a mão a quem muito o poderá ajudar, apesar de não ser um país rico.

Não é só das potências poderosas que a Guiné-Bissau necessita, para se furtar a muitos anos de caminho ingrato, com muitas quedas. Mas também da amizade e da cooperação de nações pequenas, mas dignas.

Conforme tão bem nos explica José Vicente Lopes, no livro "Cabo Verde os bastidores da independência", de 1996, a luta que conduziu à independência da Guiné e de Cabo Verde "está irremediavelmente ligada ao aparecimento do PAIGC", partido agora dirigido por Domingos Simões Pereira, depois de em anos recentes o haver sido por Carlos Gomes Júnior.

Data esse aparecimento do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde de Setembro de 1956, tendo ao parto estado particularmente associados Amílcar Cabral, Abílio Duarte, Aristides Pereira e Luís Cabral.

A unidade dos povos da Guiné e de Cabo Verde era um dos grandes desígnios dos irmãos Cabral e dos seus amigos mais próximos, mas essa unidade foi quebrada em 14 de Novembro de 1980 por João Bernardo Vieira, "Nino", ao dar um dos muitos golpes que os guineenses infelizmente têm sofrido.

Também se defendia no programa do PAIGC um regime democrático, uma boa estruturação da economia e o desenvolvimento da produção, coisas que acabariam por vingar muito mais em Cabo Verde do que na Guiné-Bissau, devido à impreparação de muitos dos seus quadros e às rivalidades étnicas.

Cabo Verde soube sempre lutar por justiça e progresso para todos, mas muitos guineenses não o conseguiram fazer, de modo que é agora chegada a altura, com o Presidente José Mario Vaz e com o primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, de lançar mãos à hercúlea tarefa de começar de novo e erguer dos frágeis alicerces um Estado de há muito adiado.

A liberdade e o progresso que Cabo Verde tem conhecido, devidamente reconhecido por muitas instâncias internacionais, deverão pela certa impressionar o actual líder do PAIGC quando por estes dias se passear por quatro das afortunadas ilhas onde nasceram Bana e Cesária Évora. E esperemos que lhe deem o impulso para ultrapassar barreiras e se firmar como um digno chefe de Governo, de que os seus compatriotas se possam orgulhar.

A Guiné-Bissau de hoje já não é a desgraça que era a de há dois anos, mas também não é ainda, de forma alguma, a que tantos têm desejado, ao longo dos tempos. E por isso se formula o ardente voto de que se torne altamente produtiva a visita oficial de Domingos Simões Pereira às ilhas de Cabo Verde.



*Jorge Heitor, que na adolescência tirou um Curso de Estudos Ultramarinos, trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio