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Análise

Leston Bandeira

Carlos Correia, um "histórico" para tirar a Guiné-Bissau de encruzilhada na História

Carlos Correia, um "histórico" para tirar a Guiné-Bissau de encruzilhada na História


Carlos Correia, provavelmente a última testemunha activa dos últimos 56 anos da História da Guiné Bissau, vai, como Primeiro Ministro, assistir, junto de José Mário Vaz, o actual presidente da República, às comemorações do 42º aniversário da proclamação da Independência em Medina do Boé, em 24 de Setembro de 1973, pelo então secretário geral do PAIGCV, Aristides Pereira.

Olhando as datas e os factos não se pode deixar de notar que ainda José Mário Vaz não era nascido (nasceu em 1957) , já Carlos Correia estava envolvido políticamente com os que haveriam de fundar o PAIGC, em 1956.

Quando, em Agosto de 1959, Carlos Correia assistiu ao massacre dos estivadores do Porto do Pidjiguiti, o presidente de hoje tinha dois anos. Carlos Correia trabalhava na Casa Gouveia e foi ouvido várias vezes como testemunha da actuação das autoridades de Bissau contra os estivadores. Os factos empurraram-no para se juntar aos que, com armas na mão, se propunham libertar o país.

Foi camarada de Amílcar Cabral, de Aristides Pereira, de Nino Vieira, de Oswaldo Vieira, de Pedro Pires, de Tchutchu, de Joseph Turpin e tantos outros.

Quando em Janeiro (20) 1973 o Mundo ouviu, incrédulo, a notícia da morte do então considerado, no exterior, incontestado líder da luta de libertação contra o domínio de Portugal, às mãos de um grupo de militantes do partido, Carlos Correia terá ficado igualmente estupefacto. Na sua história nada indica que estivesse do lado do grupo que decidiu a morte do chefe.

Participou da proclamação da Independência da Guiné Bissau a 24 de Sembro de 1973, em Medina do Boé, e ter-se-á regozijado com o facto de oitenta estados de todo o Mundo terem reconhecido imediatamente o novo estado africano.

Segundo o partido, dirigido então por Aristides Pereira a missão ainda não estava totalmente cumprida porque o objectivo era também conseguir a independência de Cabo Verde. Mais tarde – segundo o projecto, o partido governaria os dois estados, o que aconteceu até 14 de Novembro de 1980.

Nesse dia , Nino Vieira, ao tempo Comissário Principal (primeiro-ministro), foi metido num carro blindado para comandar um golpe de estado contra Luís Cabral, irmão de Amílcar.

Vitorioso o golpe de estado, os guineenses puseram em marcha uma caça aos cabo-verdianos, concretizando assim o que foi apelidada de “segunda morte de Amílcar Cabral”.

Esta “dupla” morte do pai é, seguramente, um obstáculo a uma afirmação plena da Guiné Bissau como estado independente, com um projecto de desenvolvimento assente nos inúmeros recursos naturais de que dispõe. Um deles é, sem dúvida, a sua diversidade étnica, mas, ao contrário, tem constituído, um obstáculo, já que os seus dirigentes atribuem às suas origens tribais valores diferenciadores, tal como uma boa parte dos guineenses atribuiu aos cabo-verdianos que com eles viveram os tempos difíceis da luta e dos primeiros anos de reconstrução nacional.

Carlos Correia não está, seguramente, entre os que veêm, quer na cor, quer na étnia um factor de diferenciação ou de preferência.

Considerado um dirigente forjado na luta, tendo feito na então República Democrática Alemã, um curso de Engenheiro Agrónomo, Carlos Correia desempenhou vários cargos, entre os quais o de ministro do Desenvolvimento Rural e Agricultura e Comércio.

Concretizada a separação dos projectos Guiné Bissau/ Cabo Verde, Carlos Correia, natural de Bissau, foi vivendo os tormentos do seus país, envolvido em querelas e em guerras muito sangrentas e pouco esclarecedoras.

Foi por quatro vezes – sempre em alturas de crise – chamado a chefiar o governo e, numa delas, em apenas um ano,conseguiu dar bom caminho ao desenvolvimento do país, tendo sido, nessa altura, elogiado pelo FMI e pelo Banco Mundial.

O actual presidente, José Mário Vaz,  – também ele membro da terceira geração pós-Pidjiguiti – criou com a demissão de Domingos Pereira uma crise política pouco clara. Para a resolver voltou a chamar o político que toda a gente considera homem sério, mas já há muito afastado da política activa.

Carlos Correia tem uma longa experiência – já viu tudo – por isso esqueçamos que tem 81 anos e acreditemos que é capaz de, não só voltar a colocar nos eixos o país, como também o próprio presidente - que, pelos vistos, acha que ser presidente tem que ser “à Nino” (isto é, "manda está mandado").O PAIGC contemporizou e aceitou não voltar a indicar como primeiro ministro Domingos Simões Pereira, continuando, todavia, a ser o presidente do partido, o mesmo que Carlos Correia ajudou a fundar em 1956.


*Jorge Heitor, que na adolescência tirou um Curso de Estudos Ultramarinos, trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio