Africa Monitor

Análise

Jorge Heitor

As propostas matreiras de Nuno Nabiam

Nuno Gomes Nabiam, o candidato à Presidência da Guiné-Bissau apadrinhado por Kumba Ialá, nos meses que antecederam a morte deste, não aceitou facilmente ter ficado com menos de 40 por cento dos votos expressos. E vai daí começou a bradar que "quase metade dos eleitores" lhe confiou o seu voto, esquecendo que ficou bem mais de 20 pontos percentuais atrás do candidato do PAIGC, José Mário Vaz.

Fazendo finca-pé num projecto a que chama estranhamente "Guinendade positiva", Nuno Nabiam quer que os que votaram nele fiquem representados na governação do país, apesar de o PAIGC ter ganho tanto as legislativas como as presidenciais.

Pede, pois, uma quota-parte do Poder, já que não lho deram todo, como teria acontecido se acaso se tivessem cumprido os desígnios de Kumba Ialá e dos seus aliados nas Forças Armadas da Guiné-Bissau.

Esquecendo que haverá agora um Chefe de Estado, um Parlamento e um Governo a quem isso compete, Nuno Nabiam veio a público propor que se crie "um espaço, estrutura ou instituição" que supervisione o tão necessário programa de reforma dos sectores da defesa e da segurança.

Não é, porém, um espaço qualquer, nem dirigido por qualquer pessoa. Mas sim por ele próprio, Nuno Gomes Nabiam, líder do projecto "Guinendade positiva, paz, coesão social"; agora alçado a Vice-Presidente da República, cargo que por acaso até nem existe na Constituição, mas de que pelos vistos sente a falta.

O candidato claramente derrotado nas urnas quer ainda que o seu grupo, o tal da "Guinendade", essa palavra estranhíssima, horrorosa, dirija uma Agência ou Alta Autoridade para gerir os recursos naturais do país. Não vá o Estado presidido pelo PAIGC ficar com o petróleo, o ouro, a bauxite e tudo o mais que for possível extrair das terras e das águas da Guiné-Bissau..

Para além disso, deseja que não haja perseguição, revanchismo e retaliação de pessoas. Muito possivelmente a pensar nos seus amigos militares que há dois anos deram o golpe de estado que impediu o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior de ser eleito Presidente da República.

Ou seja, Nuno Gomes Nabiam não se contenta em ser um político qualquer, mesmo que isso signifique ser uma destacada personalidade da oposição ao Governo que vai ser formado pelo líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira.

Quer ser alguém muito importante, se possível um vice-presidente, ou até mesmo um co-presidente, capaz de impedir o afastamento do general António Indjai da chefia do Estado-Maior General das Forças Armadas; e o afastamento de outros oficiais-generais que nos últimos anos têm interferido demasiado na governação da Guiné-Bissau.

Isto numa altura em que até mesmo instâncias internacionais já começam a sugerir que, de facto, se abrandem as queixas existentes contra o golpista Indjai, não vá ele irritar-se e mandar prender o Presidente eleito José Mário Vaz, como já fez com o Presidente interino Raimundo Pereira e com o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.

Aguardemos. Aguardemos, pois ainda a procissão vai no adro. Daqui a semanas começará a funcionar o Parlamento eleito, depois toma posse o Presidente e, finalmente, Domingos Simões Pereira, ao que tudo indica, forma Governo.

No entanto, enquanto aguardamos devemos abrir bem os olhos e estar muito atentos a todas as manobras de que é capaz Nuno Gomes Nabiam, uma espécie de advogado do que queria Kumba Ialá e do que António Indjai continua a querer.

A comunidade internacional não pode lavar as suas mãos de tudo o que acontece na Guiné-Bissau, dando-se por satisfeita só porque já se verificaram nesse território eleições presidenciais e legislativas. Eleições essas que, no contexto guineense, podem não passar de uma simples panaceia, como tão bem diz o sociólogo Carlos Lopes.

 

*Jorge Heitor, que na adolescência tirou um Curso de Estudos Ultramarinos, trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio