Africa Monitor

Análise

Luís Bernardino*: O impacto da Economia Interna na Politica Externa Angolana em 2015

Luís Bernardino*: O impacto da Economia Interna na Politica Externa Angolana em 2015


Angola inicia em 2015 um ciclo de projeção internacional que exige não só uma reestruturação da sua política externa como a congregação de avultados recursos económico-financeiros para suportar essa evolução, que alguns consideram natural e evolutivo, depois de uma bem conseguida consolidação da paz e da estabilidade interna desde meados de 2002.

Angola passou a ser visto como um país em crescente afirmação na cena internacional, que se assume como produtor de segurança regional, que aposta no diálogo continental para a paz e que irá, a breve trecho, projectar militares em operações de paz no âmbito das Nações Unidas...quando se prepara para assumir no inico de 2015 funções como membro não permanente no Conselho de Segurança nessa organização global.

Esta viragem e acelerada dinâmica da política externa Angola, essencialmente na vertente da segurança e da paz, vem consolidando-se regionalmente e a nível do continente africano, onde temos assistido, nos últimos anos, a um maior envolvimento e protagonismo na participação em missões, exercícios militares, representatividade diplomática, acções de negociação e mediação e até à projeção das suas Forças Armadas como mecanismo, porventura estratégico, de política externa do governo Angolano.

Umas Forças Armadas que em acelerado processo de reestruturação, reequipamento e rejuvenescimento desde meados de 2007, tem sido o suporte da estabilidade e do desenvolvimento interno e um dos principais mecanismos regulador do precário equilíbrio geoestratégico de segurança no contexto regional subsaariano.

Referia Nelson Rodrigues num artigo de opinião editado no semanário “Expansão” do passado dia 19 de Dezembro, intitulado “Défice de 1 bilião Kz vai “apertar” Governo nos compromissos internacionais” (p. 16), e focalizando-se na baixa do preço do petróleo e na subida das taxas de juro para empréstimos em Angola, com base no recentemente aprovado Orçamento Geral do Estado para 2015, que existiriam algumas dificuldades para o Executivo Angolano no cumprimento das elevadas expectativas de crescimento que impulsionaram o desenvolvimento em Angola e assim em corresponder aos recente compromissos regionais e internacionais assumidos pela sua política externa.

Uma reflexão e uma dúvida assaz pertinente que percorre políticos, militares, académicos e analistas do mundo inteiro, que estão algo expectantes para saber de que forma Angola irá ser influenciada ao nível da sua ambiciosa política externa pela conjuntura internacional de abaixamento do preço do petróleo e as consequências que advirão para a economia doméstica deste fenómeno económico conjuntural.

Porem, alguns académicos mais experimentados aconselham a análise da fórmula do poder do Estado de Ray Cline , para melhor compreender quais os reais mecanismos que podem ser empregues pelos Estados para projectar poder e influência, e identificar qual o papel da economia neste contexto. A Ciência Política à luz da fórmula de Ray Cline ajuda-nos a entender que o potencial económico e militar multiplicados se somam à vontade política e à estratégia nacional de um Estado quando este pretende se afirmar no contexto internacional. Segundo esta ideia, a capacidade de Angola em projectar o seu poder e consequentemente a sua influência, materializa-se, obviamente, na sua capacidade económica, mas também no potencial que lhe advém das suas Forças Armadas e da vontade político-estratégica de levar a efeito uma política externa ambiciosa e de projectar as suas Forças Armadas como um dos principais vectores de afirmação regional e continental.

Neste novo quadro económico-político-estratégico, os eventuais condicionalismos provocados por uma diminuição das receitas do Estado Angolano, que depende essencialmente do petróleo para financiar o seu desenvolvimento, poderá ter reflexos na política externa e nomeadamente nos programas de reequipamento e de modernização das suas Forças Armadas, embora pensemos que na atual conjuntura de alguma contracção económica e de desinvestimento do executivo Angolano, a aposta prioritária será no apoio à sua politica externa e nos instrumentos de projecção do poder e da presença internacional, em detrimento de um desenvolvimento interno mais sustentado e ao ritmo do que temos assistido nos últimos anos.

Assim, medidas conjunturais para fazer face às consequências da geoeconomia do petróleo poderão ser introduzidas internamente, mas eventualmente não irão afectar, em demasia, aquilo que o Executivo Angolano desenhou para os próximos anos ao nível da presença nos fóruns internacionais. Bem como na presença nos principais programas de apoio à sua política externa de segurança, onde a participação das Forças Armadas Angolanas continuará a funcionar como um dos principais instrumentos do Estado.

A continuação do investimento com vista a uma melhoria significativa ao nível dos equipamentos militares, do pessoal, da doutrina operacional, com reflexos diretos na operacionalidade, continuará a requerer um avultado investimento e a constituir-se como uma das área principais de investimento do Estado Angolano, pois umas boas Forças Armadas são o garante do desenvolvimento e da segurança interna e instrumentos essências da projecção do poder e da influência de Angola onde seja necessário…e possível.
Vamos ver o que nos reserva o ano de 2015…

 

* Professor Doutor, Investigador do CEI-IUL