Africa Monitor

Análise

PAICV em clima de tensão, MpD em renovação

Crimes relacionados com desvio de armas de guerra, sonegação de documentos do Estado e negócios paralelos com bens dos serviços prisionais, envolvendo membros do PAICV estão causar tensão no partido. Para algumas alas, os casos resultam da forma “pessoalizada" de José Maria Neves dirigir o PAICV e misturar assuntos do partido com os do Estado. Os históricos do partido dão sinal de descontentamento.

O primeiro caso gira em torno da figura de Fidel Tavares, director-geral dos Serviços Prisionais. Foi demitido por decisão do Governo e o Tribunal da Praia colocou-o sob termo de identidade e residência, a guardar julgamento. Os crimes, conforme investigação da PJ, são, em suma, desvio de armas de guerra (da Cadeia de S. Martinho), sonegação de documentos do Estado e negócios paralelos com bens dos serviços prisionais. As armas teriam alegadamente sido utilizadas nas recentes eleições autárquicas para intimidar figuras ou candidatos da oposição, em Santa Catarina.

O sucessor de Tavares, Jacob Vicente é agora investigado pelas autoridades francesas e cabo-verdianas por suspeita de envolvimento num esquema de roubo de carros de luxo na Europa. Associado a esta suspeita está o facto de Jacob Vicente ter sido inspector da DG dos Transportes Rodoviários e proceder, enquanto tal, à legalização da entrada de veículos no país.

Fidel Tavares, Jacob Vicente e José Maria Neves são da mesma terra natal, Santa Catarina e tidos como próximos. Tavares terá acompanhado as autárquicas de Julho de 2012 em Santa Catarina em articulação com Neves, onde o PM andaria movido pela certeza de uma vitória não concretizada nas urnas. A história da chegada de Jacob Vicente ao cargo de DG dos Serviços Prisionais é considerada “insólita”: apresentou-se há poucos meses como candidato a presidente da JPAI, a organização juvenil do PAICV, tendo posteriormente desistido e assumido funções nos serviços prisionais.

“Histórico” Pedro Pires descontente

O ex-Presidente da República e antigo líder do PAICV, Pedro Pires, tem mostrado subtilmente o seu desagrado pessoal no que toca à forma como JMN lidera. No contexto do 40º aniversário do assassinato de Amílcar Cabral, numa palestra a 18 de Janeiro, Pedro Pires referiu-se de modo depreciativo à governação do país.

Esta tomada de posição pública foi entendida como uma forma de não deixar Aristides Lima, deputado do PAICV, isolado nas suas recentes manifestações de demarcação da governação do país, em particular não ter votado a favor de um importante diploma do Governo e ter afirmado numa visita à ilha da Boavista que “o Governo devia uma explicação ao povo da Boavista” pela queda da principal ponte da ilha. Aristides é uma figura emblemática no seio do PAICV cuja candidatura independente às últimas presidenciais foi preterida a favor de Manuel Inocêncio como candidato do partido.

A tensão interna no PAICV avolumou-se após o insucesso nas eleições autárquicas. A Comissão política do partido, na reunião já mencionada, “advertiu” o Governo através de uma declaração pública com o objectivo de fazer acontecer a devolução de impostos retidos pelo Estado, dois milhões de contos, que não são devolvidos desde 2008.

MpD em renovação

O sucesso do MpD nos resultados das eleições autárquicas de 2012, projecta o partido para uma renovação, com objetcivo de regresso ao poder. Na opinião de Carlos Veiga, que decidiu não se recandidatar à liderança do MpD, Cabo Verde caminha para uma crise aguda e o partido deve estar ciente e à altura do seu estatuto de força alternante.  Na perspectiva da direcção do maior partido da oposição, o orçamento de Estado para 2013, recentemente aprovado (votos contra de toda a oposição), vai acentuar tendências negativas da economia, em aspectos como um aumento generalizado das despesas a níveis acima da taxa esperada de crescimento do PIB.

A prioridade dada à renovação do partido, para melhor se preparar para um regresso ao poder, foi clara também na mensagem de ano novo de Carlos Veiga aos cabo-verdianos onde anunciava uma nova roupagem, a todos os níveis, das lideranças partidárias em 2013, querendo alcançar bases mais fortes não só na organização do próprio partido mas também na comunicação e relação com a sociedade.