Africa Monitor

Análise

Paulo Guilherme

Portugal e a “corrida do G7” por Angola e Moçambique

Portugal e a “corrida do G7” por Angola e Moçambique

A Christine Lagarde que Portugal conhece é de outras “troikas”, que não as que a levaram a Moçambique na semana passada. A número um do FMI foi a Maputo dar o corpo por uma grande conferência internacional sob o lema “Africa Rising” – “A Ascensão de África”.

Este artigo não é sobre as razões – ou falta delas – para o entusiasmo em torno do sonho de uma África a afirmar-se economicamente na cena global. É sobre como as potências económicas globais estão ativamente a cortejar Moçambique e, sobretudo, Angola, numa altura de alheamento em relação ao tema em Portugal, que de há muito tempo mantém relações económicas e comerciais privilegiadas com ambos os países.

Na sua edição de 29 de maio, o Financial Times dava conta de que a Casa Branca enviou nas últimas semanas para África 3 altos responsáveis comerciais e económicos. O objetivo era muito pragmático: discutir formas de fortalecer a presença de empresas norte-americanas nos mercados africanos. “Há claramente um sentido de oportunidade em África e o governo norte-americano está a agarrar-se a isso”, dizia um destes altos responsáveis. “Vemos África como uma fonte real de oportunidades”.

Em Agosto, José Eduardo dos Santos deverá estar entre os chefes de Estado que em Washington assistirao ao lançamento oficial da nova política norte-americana para África – uma cimeira na Casa Branca com líderes de 50 países africanos. Em paralelo, e numa demonstração clara daquilo em que consiste a nova política, realiza-se o US-Africa Business Fórum, com dezenas de executivos de multinacionais norte-americanas.

Em Lisboa, o Africa Monitor Intelligence dá conta, numa das suas últimas edições, de que Santos deverá estar presente, embora fazendo de alguma maneira depender o “sim” de um encontro a sós com Barack Obama, que há muito deseja.

O primeiro passo da ofensiva norte-americana foi a passagem de John Kerry por Luanda. Onde, nota também o AM Intelligence, não houve encontros do secretário de Estado norte-americano com a oposição. Isto para garantir que a visita decorria sem o mínimo melindre.

Santos, recorde-se, foi recentemente recebido ao mais alto nível em França. O “Angolagate”, que durante décadas ensombrou as relações entre os dois países é agora “passé”. Num artigo sobre a visita, o centro de estudos britânico Chatham House questionava a lentidão do governo britânico em estabelecer também elos com a presidência angolana, o centro de todas as decisões do país, desde as diplomáticas às empresariais.

Tudo isto é objetivamente uma resposta à China, que com a sua abordagem ultra-pragmática de empréstimos baratos em troca de matérias-primas, é já hoje o maior parceiro comercial de África. Mas também ao Brasil, Rússia, Índia e outras potências emergentes que têm vindo a estabelecer laços comerciais e económicos importantes em África. É o G7 a dizer "estamso aqui" um continente em crescimento económico acelerado, depois de ter visto a evolução das suas trocas condicionada durante muitos anos por questões em torno da democracia e direitos humanos nestes países. Neste momento, isso parece não ser já uma questão.

E Portugal, está ciente de tudo isto?

Ao nível dos Estados, claramente que os tempos mais recentes têm sido negativos. Primeiro foram as investigações judiciais a figuras angolanas em Portugal, e o choque diplomático que causou. Mais recentemente, a cimeira Portugal-Moçambique foi um bom exemplo… de como não produzir resultado algum.

Isto para além dos inúmeros colóquios das lusofonias, abundantes em teoria. A CPLP continua em estado vegetativo, a discutir infindamente textos de protocolos, quando não é pasto de intriga diplomática. Espera-se que a adesão da Guiné Equatorial, além de dar mais músculo financeiro, traga novas energias e faça finalmente impor uma agenda de crescimento económico conjunto.

Na esfera privada, o cenário é diferente. Os laços empresariais, nomeadamente com Angola, são inúmeros. E fortes, bastando olhar para os interesses de Isabel dos Santos nas empresas do PSI20. O fenómeno replica-se em muitas empresas portuguesas em Angola ou Moçambique, associadas a gente influente destes países. E há claramente um capital acumulado de conhecimento mútuo e de relações próximas, que vai sendo usado a preceito.

Há anos, quando se colocava a questão da língua oficial de Moçambique, Joaquim Chissano perguntava: "muito bem, falamos português. Mas vamos falar de quê?". De negócios, responderam os empresários.

Apesar da falta de respaldo, a posição portuguesa parece ser de vantagem, à partida para a “corrida” do G7. E ainda está para ser visto se haverá concorrência direta das empresas destes países. Mas chegará a dinâmica do sector privado para aguentar o embate?