Africa Monitor

Análise

Leston Bandeira

Com “processo dos 17”, Santos tenta mostrar poder absoluto

Com “processo dos 17”, Santos tenta mostrar poder absoluto


A prisão dos 17 jovens acusados de conspiração por discutirem um livro sobre o fim de uma ditadura – seja ela qual for – foi o princípio de uma estratégia do presidente angolano, José Eduardo dos Santos. A marcação do julgamento destes jovens – entre eles Luaty Beirão – é um segundo passo.

Santos criou uma estratégia de confronto com um núcleo da sociedade civil sem grandes capacidades de aliança com os grandes conjuntos sociais do país. Tenta fazer prevalecer a ideia de que tem um poder absoluto sobre toda a Nação sujeita às leis do MPLA sem necessidade de dar satisfações.

A prorrogação do interrogatório destes 17 jovens, alegadamente sem motivos que a justifiquem, é o culminar do primeiro passo desta estratégia.

Os jovens, aparentemente, sem outros apoios que uns de outros, entram em desespero e caem na ilegalidade ao dirigirem cartas abertas ao presidente sem a menor cobertura legal e sem qualquer respeito devido, pelo menos, à instituição que José Eduardo dos Santos representa – a Presidência da República.

No último destes textos – de que se tem conhecimento – o Presidente é tratado praticamente como o chefe de uma “máfia”, que dá ordens precisas aos juízes e procuradores da República para que cumpram a estratégia de prolongar por tempo indeterminado os interrogatórios aos jovens acusados.

Conhecendo o sistema judicial angolano, em que a maioria dos seus juízes e procuradores têm conhecimento e experiências limitados, vivendo, muitos deles, da exploração do medo que as populações têm dos tribunais e das polícias, não custa a acreditar que os 17 jovens desesperem e exijam o final rápido do interrogatório e que se passe à fase seguinte: segundo eles, a da “condenação”, embora injusta.

Em contrapartida, afirmam: “caso não termine esta fase de interrogatório, na semana de 7 a 11 de dezembro negar-nos-emos a ir a tribunal e levaremos a cabo uma greve de fome, que só terminará com a satisfação da nossa exigência”.

“Deixemos de brincar aos países. Angola não é a sua chitaca e muito menos a sua quinta”. “Subscrevemo-nos, os seus presos políticos de estimação”. Seguem-se as 17 assinaturas.

Se estivéssemos a analisar um facto do Zimbabwé – donde, naturalmente, não teríamos informação tão pormenorizada, talvez entendêssemos, talvez encolhêssemos os ombros. No Zimbabwé já aconteceu de tudo em função de um presidente, muito velho, seguramente senil, e que já não é capaz de discernir o bem do mal…

Mas estamos a analisar um acontecimento, cuja importância ainda não foi explicada, de um país, produtor de petróleo, com um desenvolvimento económico – assimétrico, mas desenvolvimento – e presidido por um engenheiro, que, politicamente, passou por todas as provas. Foi a terceira escolha para suceder a Agostinho Neto, herdou um país praticamente destruído do ponto de vista económico, e uma guerra dura, contra um adversário inteligente, e fortemente apoiado.

E ganhou. Não só ganhou a guerra, conseguiu juntar a si mesmo os adversários de ontem.

Porquê, então, este incidente com 17 jovens, com uma importância ainda não demonstrada?

Será que José Eduardo dos Santos ainda manda e tenta salvar a família, mas está senil? Ou será que já não manda e há alguém à espera do momento para dizer: “agora quem manda sou eu”?