Africa Monitor

Análise

Leston Bandeira

O estado de sítio do regime de Santos

O estado de sítio do regime de Santos

 


Quando aconselhado pelo irmão a deixar a presidência, José Eduardo dos Santos terá respondido: “se eu deixar de mandar, vocês estão todos mal”. Hoje, c
omeçam a falhar elementos importantes para uma manobra de sucessão bem sucedida: o petróleo já não dá o dinheiro que dava e o país, além dos diamantes, não tem alternativa económica. E os pilares de sustentação estrangeiros começam a vacilar.

Portugal, a China e o Brasil são os três principais sustentáculos do regime, e o "imbróglio" de Manuel Vicente com a magistratura portuguesa, é uma fisssura que pode abrir outras. Segundo o Maka Angola, o todo-poderoso Sam Pa, detido pelas autoridades chinesas em 2015, está ligado por negócios ao Presidente, a Vicente e ao general “Kopelipa”.

Documentos consultados pelo Maka revelam que a venda de petróleo de Angola para a China, entre 2005 e 2010 rendeu mais 85 mil milhões de dólares. Deste valor, obedecendo a uma rede complicada estabelecida por Sam Pa, 25,7 mil milhões foram divididos entre os dirigentes angolanos.

No Brasil, a operação “Lava-Jato” está a revelar as infiltrações do regime angolano na política brasileira (e vice-versa) através da Odebrecht. Para já, há duas detenções: João Santana e Mónica Moura, que foram os responsáveis pela campanha do MPLA em 1992 e a quem terão sido pagos 20 milhões de dólares não declarados, de um total de 50 milhões. 

Até o próprio ex-presidente Lula da Silva aparece como possivelmente incriminado nestas operações financeiras.

De Portugal, um "lava-jatinho": a notícia de que um magistrado teria sido "comprado" para deixar cair um processo de branqueamento de capitais envolvendo o "vice" Vicente. Notável a falta de reacções, quer do Presidente, quer da imprensa oficial (Jornal de Angola), através dos habituais insultos de Artur Queiroz e outros reformados portugueses (que vão colmatando a falta de jeito dos jornalistas da casa para insultarem Portugal e os portugueses).

Trocado por miúdos: o Presidente preparava-se para deixar cair o seu vice. De resto, esta evidência já tem algum tempo. O pretexto final está encontrado, tanto assim que, segundo notícias veiculadas em Angola, Santos vai pedir um inquérito à actuação de Vicente na Sonangol. Como se ele, presidente, nada soubesse do que se passou na empresa petrolífera durante todos estes anos, desde 1979.

O inquérito vai dar como resultado o fim das aspirações políticas de Vicente. O
 desfecho, de resto, deve ser rápido, porque José Eduardo tem pressa em retirar um dos dados da equação da sucessão, simplificando internamente o emaranhado político que ele próprio foi criando.

Em 2000, recorde-se, poderia ter desenhado ele próprio o futuro do país com um lápis novo e afiado. Preferiu desenhar o futuro da sua família, com um lápis curto e rombo.

Ao ir buscar Vicente à Sonangol para o misturar na direcção do MPLA e lhe atribuir funções de substituição da presidência – por pouco tempo – desencadeou movimentos subterrâneos que o perturbaram.
 Rapidamente se percebeu que não era a solução, porque o MPLA não a aceitava - não fazia parte do grupo e tinha demasidado poder, isto é, demasiado dinheiro.

Santos virou-se então para a hipótese de uma sucessão familiar. Também porque, desde essa altura, o que mais o preocupa é a família: o que lhe acontecerá, no caso de deixar de ser o poder, porque é derrubado ou, porque, simplesmente, morre.

E não será apenas a família; há um enorme grupo de multimilionários em Angola, com a maior parte do dinheiro já fora do país, que, no caso do desaparecimento de José Eduardo, vão ter que criar manobras de diversão bastante arriscadas, a mais simples das quais consiste em criar bodes expiatórios e apontá-los às multidões famintas. Aí estarão, de novo, os brancos, com particular destaque para os portugueses.

Todavia, esse já não será um problema do presidente, que quer evitar que a família entre nas listas dos bodes expiatórios. A melhor maneira de tal acontecer é conseguir que um dos filhos assuma o comando do Estado, protegendo a família e todos os “enricados” à custa do petróleo e dos diamantes do povo; eles apoiarão uma sucessão familiar e o Presidente ainda está em posição de perceber isso.

O regime de Santos e suas famílias está, portanto, por um fio. Um fio que, quando começar a ser puxado, vai pôr a nú o desaforo de quase 40 anos de independência (excluo aqui os primeiros anos em que os agora milionários andaram a aprender com os burlões de todo o Mundo).

Nestes anos, o Povo foi o que menos contou. E vai continuar a não contar para nada. O que está em causa agora é tão somente a salvação desta "elite".