Africa Monitor

Análise

Rússia, a outra “China” de Angola

Rússia, a outra “China” de AngolaA Rússia, sobretudo depois do “regresso” de Vladimir Putin À presidência, vê Angola como um país com importantes influênias regionais e continentais, com potencial de cooperação. Angola, por sua vez, encontra na presença russa um novo elemento de equilíbrio de que pode aproveitar no seu relacionamento com a China, EUA e Europa. As relações bilaterais têm ganho uma dinâmica significativa e o petróleo poderá ser o próximo grande foco.

Numa operação de dimensão e cariz semelhante à das linhas de crédito chinesas, o VTB-Vneshtorgbank anunciou em outubro de 2012 de um crédito de USD dois biliões pelo para o financiamento de projectos de entidades privadas angolanas. O PCA do grupo russo Vneshtorgbank, Andrey Kostin, esteve na mesma altura em audiência na Cidade Alta com José Eduardo dos Santos e o tempo de antena dado a esta visita, pelos órgãos de comunicação social do Estado, manifestou o sinal de “correspondência” do regime angolano ao esforço russo.

Uma missão comercial russa, da qual farão parte empresas importantes de diferentes sectores, está a ser preparada sob o olhar do VTB. Relacionado a isso está o facto de a Gazprom e a Lukoil manifestarem interesse em implementar-se na indústria de crude angolana.

O VTB deu origem, em Angola, ao VTB África, licenciado numa data próxima de uma visita oficial de JES em Outubro de 2006 à Rússia. O banco foi inaugurado em Março de 2007 com instalações em Luanda e planos de abertura em Ondjiva. A instituição tinha um capital inicial de USD 10 milhões. António Sumbula, actual PCA da Endiama, foi nomeado vice-PCA.

As actividades do VTB África pareceram privilegiar o sector mineiro, razão de instalação de uma sucursal em Ondjiva. Sumbula dominava o sector mineiro, dos diamantes em especial. Compradores russos, em geral acompanhados de Sumbula (e por essa razão identificados com o VTB África), frequentavam então sessões restritas (por convite expresso) de venda de diamantes organizadas pela SODIAN, subsidiára da Endiama no campo da comercialização de diamantes.

Em coincidência temporal com a abertura do VTB África em Angola foi também nomeado embaixador em Moscovo um antigo vice-ministro da Geologia e Minas, Tito Armando, geralmente considerado como um dos conselheiros de JES para os assuntos mineiros.

 

Recuperação do estatuto de super potência global via África

O balanço da cooperação denota-se ainda nas visitas diplomáticas de ministros russos a Angola, com o intuito de fortificar o desenvolvimento das relações, não só política como economicamente. O interesse da Rússia numa aproximação a Angola, apurado depois do regresso de Putin à presidência, demonstrou-se, aqui, uma vez mais. A isto junta-se a alta distinção – Ordem de Honra - dada a Eduardo dos Santos (JES) por Vladmir Putin, justificada pelo “grande contributo dado por JES ao desenvolvimento da parceria russo-angolana.

O querer recuperar a importância estratégica (na dimensão da URSS) que a Rússia teve no passado tem justificado o presente forcing de reaproximação a Angola. África dava à ex-União Soviética o estatuto de super potência global. Esta reaproximação baseia-se em factores-chave como vantagens económicas no domínio da exploração de recursos naturais e importância política para estar a par da China, dos EUA, da Europa e dos BRIC no que toca à afirmação da sua geoestratégia.

A forte presença da URSS no continente africano representa hoje para os russos uma mais valia espelhada em afinidades resultantes da cooperação militar, geradora de influências especiais. A formação de oficiais angolanos ainda é, em larga escala, feita na Rússia e em Cuba. Portugal e Brasil passaram também a ser parceiros de Angola no campo da cooperação militar, mas de forma limitada e as propostas dos EUA nesse domínio não têm sido atendidas.

 

(2013, Africa Monitor Intelligence – www.africamonitor.net)