Africa Monitor

Análise

Leston Bandeira

Serão os “filhos do poder” capazes de assegurar a sucessão em Angola?

Serão os “filhos do poder” capazes de assegurar a sucessão em Angola?

 
Isabel dos Santos vem tentando há muito tempo legitimar, por todo o mundo, a fortuna que acumulou (3,5 mil milhões de dólares segundo a Forbes) com os favores do pai presidente. Mas é duvidoso que ela ou outro membro da “nova geração” do poder possa assumir-se como alternativa. E a hora da sucessão parece cada vez mais próxima.

A consultora Africa Pactrice afirma em artigo recente que 2016 será um ano dificíl para a “geração dos dinossauros”, dos autocratas envelhecidos. A categoria inclui José Eduardo dos Santos, o presidente da Guiné Equatorial e Robert Mugabe. Estes velhos donos do poder, diz, “presidem a elites cada vez mais divididas”.

Sobre o assunto, o analista angolano Rafael Marques (Maka Angola) é peremptório ao Africa Monitor: a segunda geração de “cleptomaníacos” angolanos “não tem capacidade nenhuma para herdar o comando do poder”.

“A primeira geração tem as credenciais da luta de libertação, da guerra civil e muita experiência em lidar com o povo, reprimi-lo e em enganá-lo através da mobilização partidária, etc. A segunda tem o dinheiro e o património amassado pelos pais e total distanciamento do povo”, afirma.

“Quando a primeira geração for embora, a segunda segue o caminho”, sentencia.

O tema esteve em cima da mesa no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, dia 28 de Janeiro, numa discussão sobre o livro “Angola: Magnífica e Miserável”, com a presença do autor, Ricardo Soares de Oliveira. Presentes alguns académicos destacados, casos de Clara de Carvalho e Michael Cahen.

Para Soares de Oliveira, o Estado angolano é “uma ferramenta para o enriquecimento pessoal”. Fala num regime autoritário estável e aponta uma característica que diferencia Eduardo dos Santos dos restantes presidentes africanos: nunca mandou matar gente da direcção do MPLA (não continuando a tradição anterior) e fez uma distribuição de benesses dentro do partido, tendo, depois, alargado essa partilha aos dirigentes da oposição, que, dessa maneira foi domada.

Oliveira destacou ainda a importância do exército angolano, com 120 mil homens e uns serviços secretos eficientes, com a formação inicial levada a cabo pela STASI, a polícia política da Alemanha de Leste, e agora apoiada pelos serviços secretos israelitas.

A Sonangol, observou, nasceu numa contradição: foi instalada e dirigida por americanos, que, na altura, apoiavam na guerra civil, os adversários do MPLA – a UNITA.

Facto é que, até hoje, as grandes fortunas detidas por militares e por familiares de Eduardo dos Santos não serviram para a criação de meios de produção, ao contrário do que aconteceu na Rússia, onde a acumulação de riqueza será transmitida às segundas gerações através da propriedade.

Apesar de Angola ter tido origem, como país independente, numa cópia do sistema económico da URSS, o fim do partido único retirou ao Estado a possibilidade de gerir a acumulação de capitais. De resto, uma das preocupações da direcção do MPLA foi a criação de uma elite com capacidade de fazer a acumulação primitiva de capital.

Em causa está hoje a continuidade de um poder que assenta hoje na riqueza desmesurada de uma elite criada na guerra civil e alimentada pela distribuição selectiva dos proventos da exploração petrolífera numa época em que o preço do barril do crude esteve a níveis muito altos. E há um outro factor nesta equação: a complexidade étnica de Angola.

O país de dos Santos enfrenta agora o dilema: continuar a ser a Angola “ Magnífica e Miserável” ou passar a ser apenas miserável.