Africa Monitor

Análise

Paulo Guilherme

As tarefas de Ulisses, o cabo-verdiano, não serão fáceis

As tarefas de Ulisses, o cabo-verdiano, não serão fáceis

 
Quase todos esperavam uma maioria relativa nas legislativas de Cabo Verde, sendo o MpD favorito. No final, Ulisses Correia da Silva acabou com 15 anos de governação do PAICV em grande: com maioria absoluta confortável (quase 54%) e vitória em todas as ilhas. Mas a situação do arquipélago é delicada e agora começam as tarefas de Ulisses.

O último Africa Monitor Intelligence já apontava o candidato do MpD como favorito – apesar de uma sondagem conhecida na semana passada dar vitória ao PAICV. Era notório o maior apoio popular nas ações de campanha do partido. Com Janira Hoppfer Almada ao leme, o PAICV optava por comícios em locais mais pequenos, para não ser evidente a menor afluência.

O que mais terá pesado para a clara vitória do MpD? No nosso entender, o desgaste/saturação do eleitorado em relação ao PAICV, após 15 anos de governação; isto conjugado com a crise económica dos últimos anos, entre cujos efeitos mais importantes sobressai o desemprego jovem. Mas também a falta de segurança, com casos visíveis de aumento da criminalidade grave.

Já em plena campanha, dá-se o quase colapso dos TACV, com arresto de 1 Boeing e paralisação de outro, entre alegações de favorecimento a uma companhia aérea espanhola a operar no arquipélago, alegadamente com accionistas cabo-verdianos não identificados. Foi o escândalo da campanha.

Tudo isto serviu a Ulisses – que ao longo dos anos, e sobretudo c
omo presidente da CM da Praia, granjeou um perfil de bom gestor. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa (1988), foi professor universitário e alto quadro do Banco de Cabo Verde, secretário de Estado das Finanças, e Ministro das Finanças tendo tutelado o processo de indexação do escudo cabo-verdiano ao euro. Depois, ganhou a principal autarquia do país.

Fez bandeira de campanha o crescimento económico – promete 7% ao ano – e redução do desemprego. Prometeu despartidarizar a administração pública, promovendo a meritocracia. Agora, começam os trabalhos.

O primeiro, como assumiu no discurso de vitória, será "salvar" os TACV, onde alastra a paralisia operacional, devido aos problemas financeiros. É
 esperada a nomeação imediata de um novo conselho de administração e medidas urgentes para recuperação da imagem da empresa. A médio prazo, terá de mostrar resultados ao nível do crescimento económico e redução do desemprego, sob pena de frustrar as elevadas expetativas que rodearam a sua eleição. 

Menos falada nesta campanha foi a situação da dívida do arquipélago, que tem vindo a crescer e já ronda os 120% do PIB. É muito elevado, mesmo para os padrões europeus, e vários observadores (FMI, agências de rating) têm vindo a alertar para a necessidade de medidas de contenção. Ulisses, que chega ao poder em ombros, pode vir a ter de tomar medidas impopulares.

O forte resultado do MpD é um bom impulso para a recandidatura presidencial de Jorge Carlos Fonseca, que deverá avançar nos próximos dias. Na sua reação à vitória de Ulisses, o presidente não deixou de frisar que o cabo-verdianos “demonstraram, perante os mais céticos, que há sempre uma racionalidade nas suas escolhas em cada momento".

Da mesma forma, José Maria Neves, cujos mandatos estavam em escrutínio nestas eleições, e se envolveu muito diretamente na campanha (incluindo com intervenções sobre os TACV), enfrenta uma conjuntura negativa para a sua esperada candidatura presidencial.