Africa Monitor

Análise

Xavier de Figueiredo

A “malapata” da diversificação da economia*

A “malapata” da diversificação da economia*


Não era de esperar que o ministro da Economia de Angola dissesse coisa diferente daquela que disse num destes últimos dias. A saber: que o esforço de diversificação da economia, em que no seu juízo o Governo está lançado, já vem de trás; não é de agora nem consequência da crise da queda do preço do petróleo.

A ideia do esforço de diversificação da economia tem muito fraca correspondência com realidade; por mero acréscimo, a sua temporalidade tem ainda menos importância. Há dez anos à frente da pasta da Economia, antes disso titular de outros cargos de grande responsabilidade na área económico-financeira, Abraão Gourgel deve sentir-se pouco à vontade com a realidade económica de Angola amargamente revelada pela crise do petróleo. A única coisa que o desculpa é que aquilo que deveria ter sido feito, e não foi, de modo a criar e fortalecer uma economia não petrolífera, dependia de um centro de decisão política que o excede – em iniciativa e poder de execução.

É muito mais acertada a visão que Carlos Feijó tem do assunto – algo a que a lucidez e a independência de pensamento que o distinguem não serão estranhas. “Esta tese da diversificação da economia, que deveria permitir que chegássemos a 2017 e entrássemos na fase de sustentabilidade da economia, temos de dizer que não fomos assim tão bem sucedidos”, é este, em linhas gerais, o seu pensamento, manifestado publicamente, em Lisboa.

Os responsáveis políticos angolanos, muitos dos quais ainda oriundos da época revolucionária, denotam antiga e arreigada inclinação para minimizar com “desculpas de mau pagador” embaraços criados por situações em que, de facto, são apanhados desprevenidos. Tratam não só de se apresentar como não tendo sido apanhados de surpresa, como tendo sabido reagir a tempo.

Assim como não foi sob pressão do colapso da ordem mundial que durou até à queda do muro de Berlim que procederam a capitais mudanças políticas e económicas (já tinham antevisto o vendaval e estavam a agir em conformidade….) também agora estavam concentrados em políticas e planos de diversificação da economia, porque na sua “bola de cristal” se desenhava cada vez uma queda dos preços do petróleo como esta e, na sua esteira, o fim da sua petroeconomia.

Não se está propriamente a diversificar a economia, como podia ter sido acontecido em treze anos de paz e de abundantes recursos, quando não se cuida de elevar os baixos padrões de qualidade de um sistema de ensino a que parece dar-se mais importância estatística. Ou quando se relaxa tanto no que há a fazer para dotar o país de uma capacidade de produção de energia, de que continua desoladoramente desprovido – e sem a qual nenhuma industrialização é possível.

Aos alertas dos últimos anos segundo os quais o potencial de reservas petrolíferas conhecidas/estimadas estariam exauridas num espaço de poucos anos, as autoridades não responderam com o lançamento de efectivos planos de diversificação da economia, mas sintomaticamente anunciando projectos como o da pesquisa de petróleo no pré-sal. Petróleo, sempre o petróleo.

Carlos Feijó também diz que uma maneira de se aprender com os erros é quando eles provocam dor. Manipular erros no sentido de os transfigurar em meias vitórias, ainda que apenas discursivamente, é o mesmo que alijar ou não reconhecer esses erros. E meio caminho andado para nunca se retirar deles os devidos ensinamentos.


* Editor do Africa Monitor Intelligence